terça-feira, 31 de maio de 2016

IDAS E VINDAS I

Os caminhos são os mesmos outros de antes, agora não mais se cruzam, são linhas paralelas que se distanciaram.
Curtas experiências simbólicas, aprendizados, perdas e danos, um olhar para trás, e seguem em frente. O sol nem sempre nasce a leste ou se põe a oeste.
O aroma,  a fragrância dos perfumes deixados nos travesseiros de ambos,  evaporaram, o espaço na cama é ocupado ocasionalmente. Não é a mesma pegada forte, a mesma respiração, o mesmo arfar, o gemido nada contido, o clíma, os mesmos tremores, o ápice e o final de corpos unidos, molhados e saciados da fome carnal. Tudo é novo, estranhamente novo.
Vai ser assim até que as linhas paralelas se cruzem novamente.
O novo, de novo, traçando seu caminho.

Idas e vindas II
Salim Slavinscki
O conheci num café da estação São Bento do metrô,  entre as ruas Boa Vista e São Bento, no centro de São Paulo. O ano era 1978, dia frio e de campanha salarial dos bancários. Havia certa agitação e muita polícia nas ruas. Ele estava lendo jornal,  e bebericando café ou chá, não lembro. Me enchi de coragem, apesar de toda timidez, caminhei os seis metros que nos separava como se fosse participar de uma maratona. Seu Lourenço Diaféria, era um homem de estatura mediana, cabelos anelados e brancos; pedi licença,  me apresentei, solícito, mandou que eu sentasse.
Conversamos por cerca de trinta ou quarenta minutos. Era seu fã,  lia suas crônicas no extinto Jornal da Tarde. Disse a ele que um dia seria um cronista, e que ele era meu inspirador. Riu, e me deu o seguinte conselho:
Escreva o que sente,  transmita as palavras como se fosse abrir imagens e não espere reconhecimento, faça com prazer. Nosso país não é composto de leitores, portanto só escreva, escreva e escreva, alguém lerá!
Lourenço Diaféria se foi, eu continuo a ser seu fã e a me inspirar em sua obra.

O ABAJOUR E O GELO

Não queria nada que não fosse uma pedra de gelo massageando a nuca, descendo pelas costas, deslizando suavemente até o cóccxis,  passeando levemente entre as coxas quentes, pingos gélidos escorrendo, eriçando pêlos,  abrindo poros; mordia os lábios desejosos, revirando os olhos enquanto a pedra descia pelas pernas, dançando
sofregamente pelas panturrilhas até as solas dos pés. Então o mundo parou por segundos, emudeceu todos os sons, as cores se misturaram, os gemidos eram surdos,  desfaleceu com um sorriso lindo estampado no rosto. 

O Abajour e o gelo 
Salim Slavinscki Primavera 2015

CRAVO NA LAPELA E A VISITA À ALAMEDA FRANCA

Cravo na lapela e a visita à Alameda Franca

Um dia qualquer, porque todo dia é dia. 
Encravada entre dois imóveis comerciais, muro baixo, um pequeno jardim bem cuidado, porta alta - resquício dos anos 40 - um toque na campainha, som discreto, a porta se abre. 
Entra, se apresenta, aguarda na ante sala. Uma a uma as moças desfilam, passeiam diante de seus olhos sequiosos. Nenhuma delas foi a que atendeu à sua chamada. Espera ansiosa; intermináveis cinco minutos. Eis que surge a escolhida. Morena, olhos da cor de mel, mignon, lábios grossos, cabelos pretos até os ombros , lisos, curvilínea, um sorriso brejeiro salientado por lindas covinhas. Trazia na cabeça a prender os cabelos, um arco minúsculas rosas brancas, amarelas, vermelhas, rosa-rosa, lhe dava um ar sedutor e juvenil.
Entraram. Abriu os botões do blazer, desabotoou os botões da camisa sutilmente, despiu-lhe a calça. Ele a despiu com leveza. O bronze de seu corpo nu, contrastava com a luz âmbar do abajur. Deslizando as mãos carinhosamente por seu corpo pequeno. Pontas dos dedos pelos cabelos, abraçando e trazendo para si o ventre, os seios, as coxas. Assim se entregaram por horas, como já conhecessem um ao outro. Beijos proibitivos, línguas se enroscando, corpos se entregando, dormiram. 
Três batidas na janela os acordaram. Um sorriso, longo beijo, vestiram-se. O dinheiro combinado foi entregue. 
Deixou no criado mudo o cravo vermelho que trazia na lapela. 
Se encontram tantas outras vezes, que hoje dividem a mesma casa e um grande amor.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"Para gostar de amar"
U
No tronco do Ipê amarelo em flor, um coração e duas letras sobrepostas em baixo relevo, muito provavelmente entalhadas a canivete. Não faço idéia de quanto tempo aquela prova de amor está ali. O coração, pelo contorno, firmeza e delicadeza, foi feito por mãos femininas; as letras certamente por um homem, tamanha a profundidade e aspereza no traço. 
A árvore, por obra e graça da natureza, preservou o desenho, a casca do tronco cresceu ao redor, fazendo com que a pequena obra de arte do amor, se destaque. 
Quantos anos terão passados depois desse entalhe? Será que o amor vingou? Se não vingou, as lembranças estão retidas no subconsciente subserviente de um amor juvenil. 
Quem não desenhou um coração numa árvore, à tinta de caneta esferográfica num papel de caderno, no pulso ou numa parede, não sabe quão singelo é um primeiro grande amor que se perdeu na ilusão da vida.

Salim Slavinscki 
Numa noite fria de 02/05/2016
"O Dia em que São Jorge saltou do cavalo"

Reza a lenda, que o menino desde a mais tenra idade, gostava de vestir roupas da irmã mais velha e brincar com suas bonecas, os pais a princípio achavam engraçado, com o passar dos anos era evidente nos trejeitos e modos,  que o menino era efeminado. Era assim que eram tratados os meninos com tendências gays.  Cidade pequena do interior, a notícia corre como rastilho de pólvora. 
Marquinho não jogava futebol com os meninos,  gostava da companhia das amigas da escola, com elas aprendeu a arte de tingir e cortar cabelos. Não tinha namorada, e era conhecido dos meninos como alegria da rua. Toda sexta-feira ia com as amigas num terreiro onde se travestia de pomba-gira. Vestindo vermelho e preto, a ciganinha dava consultas. 
O pai preocupado com a situação e exposição da condição de homossexual do filho, foi ter com o pastor de sua igreja. Aconselhamentos, jejum, retiros, círculo de oração, idas e vindas à igreja, vigílias. O tempo passou.
Já adulto, uma moça de sua congregação se aproximou, mostrou interesse, da amizade ao namoro foi um salto; os anciãos aprovaram o namorado,  os pais de ambos deram as bênçãos. Casaram-se.
Marquinho continuava a gostar de bons perfumes, usava até os da esposa, de roupas que marcassem a silhueta e cores espalhafatosas, as calças agarradas ao corpo. Tingir os cabelos de preto, tirar as sobrancelhas, fazer as unhas à francesinha, nunca perdeu a desmunhecada. 
Elegeu-se deputado, combatia a homossexualidade, lutava a favor da família, dos casais heterossexuais, da religião, contra a corrupção dos valores cristãos. Mas não deixava de frequentar a casa de massagens 2069 e Chili Peper! 
E seu voto foi Sim,  pela moralidade e bons costumes... Foi nesse dia que São Jorge desceu do cavalo!

domingo, 17 de abril de 2016

BOM DIA

Bom diaaaaa
O processo é louco, é trágico e pouco cômico.
Um dia que poderá mudar as moscas mas não os merdas.
A divisão de classes nunca na história desse país, parafraseando Lula,  esteve tão escancarada.  De um lado os "bons, os artífices da honestidade e da democracia"  do outro a "plebe esquerdista comunista" no meio os poucos que ainda enxergam que a verdade está escondida por baixo desse angú de caroço.
Vamos apreciar de camarote,  pois segunda feira tudo pode voltar a ser como antes.
Moscas,  merdas e latrinas!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A Primeira Vez de Januário

A Primeira Vez de Januário

Morar no sertão, no pantanal, na floresta ou no agreste, é para poucos,  só mesmo os valentes.
Foi no sertão mais árido,  mais castigado pelo sol e pela seca e mais distante de tudo, que
nasceu e cresceu Januário. Rapaz trabalhador, ajudava o pai na lida do pequeno sítio, ora cuidando das poucas cabras, ora da roça de feijão,  isso quando a seca deixava. A mãe o alfabetizou, nunca frequentou a escola.
Aos quinze anos, o corpo dava sinais das necessidades físicas. Espinhas e cravos marcavam sua face; o sono era agitado, não conseguia dormir em decúbito dorsal, se ajeitava,  se mexia, fungava, respirava fundo, enfim dormia. Os lençóis ficavam engomados. Pela manhã, corria para lavar a prova material e os despojos da noite de desejos incontidos. Era só covardia, cinco contra um.
O pai, sertanejo calejado, homem experiente e bem vivido, preocupou-se. Chamou o rapaz para uma conversa de pé de ouvido, coisa de homem para homem. Prometeu levar o menino à cidade no próximo final de semana.
A semana custou a passar. Chega o sábado, depois de longa e interminável espera. Selaram os jumentos e rumaram para a pequena cidade de Ingatái. Resolvidas as pendências, pai e filho rumaram para a zona, casa de tolerância, casa da luz vermelha,  que na verdade era um lampião à querosene dependurado na parede da entrada.
Um pouco ansioso e bastante tímido, foi apresentado à dona Rosalina, a gerente da casa,  mais comumente conhecida por cafetina. Mulher de mais de cinquenta anos, gordinha, tez morena, levou Januário para uma saleta, recepicionado por Idalina, loira de farmácia, corpo um tanto maltratado pelo trabalho autônomo, de micro empresária do sexo e do prazer, não passa dos vinte e cinco anos. Arrastou o rapaz para um quarto pequeno. O preço do serviço já estava acertado e pago pelo pai. Lá, ofereceu um copo de bebida, de pronto recusada. Juntou as camas de solteiro,  apagou a luz do candeeiro, se despiu, e deixou o cliente em pêlos, nu como veio ao mundo. A rapariga desenrolou a mercadoria do rapaz,  um apêndice de quase 30 centímetros. O pau cantou literalmente, lateralmente,  frontalmente e de costasmente.
A noite foi longa. Amanheceu. Teve beijo na boca na despedida. Livre,  mais leve e solto, Januário desceu a rua sorrindo para o dia.
A moça, devido ao esforço físico despendido, fechou para balanço. Não atendeu ninguém.

Salim Slavinscki
08/04/2016

quinta-feira, 7 de abril de 2016

DA SÉRIE: NÃO OFERECE QUE EU COMO

Da série: Não oferece que eu como!

As redes sociais são um fenômeno interessante, mesmo que saíbamos que somos o extrato mal acabado do fingimento, pois somos o que não somos ou nos apresentamos como se não fôssemos na vida real,  até mesmo somos, mas nos escondemos no armário. Somos atores, atuamos para uma platéia de atores amadores para quem compartilhamos nossos pensares e, retribuimos com figuras emblemáticas, que transmitem sentimentos de aprovação ou reprovação. Rimos da desgraça alheia,  da falta de informação, cultura,  ou até mesmo de nós mesmos. Pois somos todos, o  ser e estar ator. Nos travestimos de personagens à guisa de um bom ou mal momento. Não importa. Somos, contraditórios, conselheiros, sedentos de paz e justiça, mesmo não enxergando as diferentes opiniões, vale tudo,  menos sermos contrariados. Somos os paladinos da fé e da coragem,  do novo Aeon,  o roxo do arco íris, mitigantes da bondade e da esperança. Somos atores de uma peça teatral coletiva.
Somos os filhos das redes sociais,  apadrinhados pelas mídias, os famosos quem do imediatismos, somos as celebridades que as redes promovem em alguns poucos minutos de sucesso; a foto sensual, a foto em família, o canto atravessado e desafinado, o bico de pato, os ridículos, os lindos e os feios, os falsos e os verdadeiros, o certo,  e os errados, a direita e a esquerda, mal resolvidas, o álbum de família, o corno, a vadia, a periguete, o sério, o falso,  o oprimido, o rico e o pobre, a menina que se irrita com um comentário em sua foto semi nua, de elogio à loucura coletiva e social.
Somos a nuvem passageira, o obséquio e o objeto egoísta narcisista.
Somos o reflexo de nós mesmos no espelho virtual.

Salim Slavinscki
07/04/2016

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O PRIMEIRO AMOR

Incompreensíveis e indomináveis hormônios, tubérculos da puberdade adolescente,  onde qualquer calcinha pendurada no varal, não sendo de parente,  aguça o tesão da gente.
Meninidade, a voz mudando,  pêlos acobertando pecados nem tão originais. É com a direita,  é com a canhota,  banho demorado que tudo molha.
A menina da escola,  da catequese,  da aula de datilografia - você não conhece, nem acredita - dos cadernos de questionários,  respostas mal escritas.
A primeira vez que segurou a mão, querendo que todos saíbam, só que não. O coração batendo tão forte,  querendo perder a razão. Os sonhos eróticos, a revistas do Zéfiro,  o mundo numa noite,  dia de perder o chão.
O primeiro beijo escondido, o primeiro olhar, a boca aberta,  a língua tesa, travada,  todos os sentidos aguçados,  o medo de pecar.
O primeiro amor,  que como uma flor, se desabrochou e logo morreu...

O primeiro amor
Salim Slavinscki
03/04/2016

sábado, 26 de março de 2016

QUIETUDE

Quietude

Som do silêncio,  como ouví-lo?
Um nada, paragem, desligar-se,  entrar em alfa, como um cochilo quando nada é audível,  nem mesmo a própria respiração?
Fechar-se ao que acontece ao redor,  como quando estamos em oração?
Mentalmente conversando com Deus vamos nos desligando, deixando as cismas, a aparente timidez, nos despindo  do orgulho e da arrogância,  então nos vestindo da humildade. À medida que nos apequenamos, sentimos a presença Dele, quando descendo lágrimas, molhamos o rosto, sabemos que nosso silêncio está chegando ao Pai. E nos agigantamos humildemente para Lhe pedir algo ou o seu perdão.
Podem haver outras formas de silêncio,  eu só conheço essa!

O som do silêncio
Salim Slavinscki
26/03/2016
Sábado de aleluia

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

TEMPO HÁ


"TEMPO HÁ"

Ainda há tempo de desejar bom dia, fazer um aceno, menear a cabeça, sorrir, mesmo que timidamente,  em resposta a uma saudação.
Ainda há tempo de trocar algumas palavras com o vizinho na calçada,  no elevador,  na escada, na feira, no supermercado. Varrer o terreiro,  alimentar os pássaros, visitar um parente,   ligar para o filho, pais,  irmãos. Trocar mensagens otimistas,  rir de bobagens ditas
Ainda há tempo de desejar o melhor para todos e para nós mesmos.
Ainda há tempo para tantas coisas
Tempo para usar as redes sociais e publicar mensagens pra cima, que façam pensar, tirar um sorriso...
Ainda há tempo!

Ainda há tempo
Salim Slavinscki
28/02 /2016

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Igualdade, fraternidade e Doroteia

Maria Doroteia, "facebuquiana assumida", rata de sociais, consumista extremada, frequentadora de carteirinha de shopping e da rua 25 de Março, assídua telespectadora de novelas e programas de auditório, anti petista juramentada, participante de passeata pró impeachment, protetora de cães vadios e outros bichinhos, favorável à volta dos militares, ficou estarrecida ao ver o noticiário dos atentados em Paris/França. Ligou prazamigas, chamou no zap zap, in box, twitou; aquilo era demais, terror, tragédia, imediatamente procurou uma bandeira para por nos seus perfis, instagram, facebook, twiter, zap zap, tão solidária com coisas da gringa, Logo ela que pensava em ir embora do Brasil, o país não era mais para ela; desmandos corrupção, violência, assaltos, sequestros, comunismo. Mesmo sem falar direito bom dia em inglês e francês, aprendidos nas aulas do antigo curso colegial, que ela mal completara, pediria demissão do supermercado em que trabalhava e poria o pé na estrada, ou oceano.
Por desconhecimento, ignorância, falta de informação, distração, ou burrice mesmo, tascou a bandeira da Holanda nos perfis.
Igualdade, fraternidade e solidariedade, não necessariamente nessa ordem!

sexta-feira, 20 de março de 2015

"RECEITA PARA DESENTORTAR BANANAS, OU COMO ACABAR COM A PRISÃO DE VENTRE"

Quem de nós alguma vez na vida, não sofreu com prisão de ventre?
Incomoda, dá náuseas, mal humor, impaciência, podendo até causar problemas sérios, e riscos à saúde. Especialistas dizem que não só as mulheres são as que mais sofrem desse mal. Mas que porém, atinge grande parte da população masculina, também. Má alimentação, e comida
pobres em fibras e pouca ou quase nenhuma fruta, é o fator preponderante. É o preço da vida moderna.
E o brasileiro, sabichão como ele só, tem várias receitinhas caseiras para resolver o problema; mamão com mel, com caroço e tudo, chá forte de camomila com erva-doce e hortelã, de casca de Jaboticaba, de caroço de Jaca, e uma infinidade de outros. 
Dependendo da gravidade, procura-se um médico, e infalivelmente, ele dirá que é uma virose; receitando então, um laxante. Problema resolvido?
Invariavelmente, ao tomar um laxante, dependendo da dose, pode-se alterar a flora intestinal, matando alguns "bichinhos" que combatem vermes e outros "bichinhos" nocivos à nossa saúde.
Às vezes, temos que tomar um "laxante" para dar prosseguimento às nossas vidas, se errarmos na dose, poderemos eliminar algo que nos é benéfico.
Brasileiro, como eu disse acima, tem essa mania de pensar que tem a solução para resolver tudo, até mesmo para desentortar banana. Se não vejamos, domingo, dia 15/03/2015, em vários rincões(rincão é o máximo, né gente ?), o povo saiu às ruas manifestando sua insatisfação com a presidente Dilma, com a corrupção, contra o PT (partido dos trabalhadores), a sangria aos cofres da Petrobras, classe política, contra os rumos da economia etc e tal. Juntos estavam, o pobre, o preto, o estudante, o rico, o remediado, a classe média, os partidários da intervenção militar, bajuladores, aproveitadores de ocasião, torturadores do período ditatorial, direita, centro, organizações democráticas, e outras nem tanto, todos numa mesma intenção: a derrocada e derrubada da presidente. 
A democracia permite o livre pensamento, a liberdade, o ir e vir, nos expressar, exigir, pedir, conquistar, até mesmo sair às ruas, e nos permitir tudo, ou quase tudo. Depende da dose certa, senão ao invés de matar lombrigas e vermes, pode-se matar algo que nós é benéfico: A liberdade.








sábado, 7 de março de 2015

"QUASE 8 DE MARÇO, DIA DA MULHER"

Muito já se falou,  se debateu, escreveu, sobre e para as mulheres, que para mim, é um tema não só rico, como inesgotável.
Escrevi aqui, algumas crônicas, textos, contos, poesias, enaltecendo essa musa admirável e inspiradora. Se existe algo mais perfeito que o sexo feminino, permitam-me a heresia, Deus guardou só pra Ele.
Estão elas, tão adiante de nós homens, que muito provavelmente cometeria equívocos ao tentar listar em quais áreas a mulher moderna não atua. Além de mãe, esposa, namorada, amiga, amante, dona de casa, empresária, motorista, cozinheira, faxineira, contadora, ouvidora, parceira, sócia, cúmplice, deveriam ter asas, porque só mesmo um anjo para ter paciência pra aguentar tantas e tantas obrigações; e muitas não têm o merecido reconhecimento.
Já rasgaram sutiã, ficaram com os seios à mostra em forma de protesto, já marcharam em passeata revindicando direitos, são e estão sempre em processo de mudanças.
Belas, lindas, feias, brancas, negras, mulatas, índias, asiáticas, com seus arroubos, sensibilidade, carências, amor/ódio, hormônios e TPM à flor da pele, sangrando, concebendo, parindo, dando, recebendo, se entregando de corpo, mente e espírito, a mulher é a essência da vida. Hoje, amanhã e sempre. Uma dádiva divina.
Adoro as mulheres.



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

"RENATA VAI CASAR"

A vida para uns passa rapidamente, já para outros, segue seu curso lenta e vagarosamente. Nos damos conta da passagem dos anos, dos tempos, de várias maneiras; quando nos vemos no espelho mais detidamente, e reparamos as rugas no rosto, os pés-de-galinha, as entradas e os cabelos ralos no topo da cabeça, ou quando as chaves caem no chão e temos dificuldade para abaixar e levantar.
Confesso que tenho um problema de relacionamento com a passagem do tempo, não a aceito muito bem, dizem que é a tal de SPP (síndrome de Peter Pan), trocando em miúdos é a não aceitação do envelhecimento.
Recebi esses dias o convite do enlace matrimonial (nossa como estou formal e antiquado!), da filha de um casal de queridos amigos/primos, Renata Goes. Fiquei feliz e lisonjeado, para não dizer exultante. Era um primor de convite, papel cartão bem trabalhado graficamente, mais parecia um objeto de arte, enfim, muito bonito. Li, reli, várias vezes, até viajar no tempo(nosso cérebro tem essa capacidade, uns menos, outros mais), e relembrei daquela menininha loiríssima, e de seu irmão Rafael, sentados na escada do sobrado de seus pais, ambos com carinhas inchadas, denunciando que haviam acabado de acordar. Na parte debaixo, era uma loja de bolsas e calçados de onde seus pais tiravam o sustento; situada no centro do bairro da Penha em Sampa. Vez ou outra passava por ali para uns dedos de prosa, filar um café e contar anedotas, as crianças adoravam. Me despedia várias vezes - pois tanto Renata, quanto Rafael, os dois contando entre 5 ou 6 anos - insistiam para eu repetir as anedotas mais que velhas e desgastadas, e riam de se emboletarem.
Sempre que podíamos estávamos juntos, eu e os primos; íamos a shows, ou mesmo curtir a noite paulistana. Ao regressarmos, fazíamos uma sopa para curar as canjibrinas e cervejas, que sabidamente iriam maltratar nossos fígados no pós noitada. As crianças ficavam aos cuidados da avó materna, e sua aura de matrona-italiana, que sempre nos pedia para diminuir o som do falatório, senão acordaríamos os guris. Bons tempos.
Renata cresceu,  formou-se, tornou-se mulher, linda e exuberante, filha amorosa, carinhosa, e com o mesmo rosto angelical e ar de menina. 
Custa-me entender essa passagem dos anos, eu que já sou avô de de cinco lindas crianças, parecia para mim, que haveria um vácuo de tempo em que nada mudaria, os filhos seriam crianças para sempre, e que nós, os pais não seríamos os filhos dos nossos filhos.
A vida segue seu rumo, melhor não parar, vamos pegar esse bonde, melhor, esse metrô !

* Para Renata e todos os filhos que se casam


sábado, 21 de fevereiro de 2015

"AS BRUMAS"

Atrasado, o metrô paulistano seguia seu curso, percorria os trilhos lentamente no sábado de que antecedia a primavera, aumentando a ansiedade e vontade de chegar. Procurava distrair-se ao relembrar quantas vezes o encontro fora adiado; sorria.
Pessoalmente não se conheciam, apenas pelas salas de bate-papo das redes sociais, não se recordava de quem os havia apresentado. Mas havia uma empatia, uma curiosidade, um"quezinho de atração" que todo homem carrega, com as devidas licenças e cautelas. Mesmo porque o laço de amizade estava sendo estreitado.
Lembrou-se do dia em que, já fora dos limites alcoólicos, ligou tarde da noite para ela, se descadeirou, como dizem os mais velhos : Perdeu as chinelas. Ela, a tudo ouviu paciente, 
polida  e diplomaticamente, riu; e não respondeu à sua proposta molhada de álcool e da garoa da noite.
Hora de redimir. Galgou os degraus da escada rolante como se estivesse a atingir o pico Everest, a avistou, se aproximou lentamente; pequena, bonita, morena, bem mignon. Perfumada, cheirosa; se saudaram, beijos na face. A voz de menina, contrastava com o porte. O perfume combinava perfeitamente com ela, leve, aromático, sensualíssimo.
A noite passou como um cometa, se despediram, cada foi para um lado. Não mais se viram, ainda se falam pelas redes.
Restou uma aura, algo incompleto para um, e as certezas que as incertezas causam, quando o amor doado, não reverbera.
Ainda se falam, ainda resta o que virá.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"O NAMORADO DO SARGENTO"

José Guerra, o Zelão, sujeito batalhador,  tinha  diversas profissões, e em todas demonstrava capacidade, habilidade, destreza;  exímio ferreiro, padeiro, confeiteiro, motorista, dinamitador, e ainda se virava como marceneiro e carpinteiro. Na profissão de fé, em sua oficina nos fundos de sua residência, fabricava artesanalmente ferraduras, peças para embocaduras, estribos, e tudo que se relacionasse à montaria, era assim que ele se referia aos equinos. Sob encomenda construía charretes, ocasionalmente carroças; tudo de forma artesanal, pouco ou quase nada utilizava ferramentas modernas. Nas horas vagas entalhava madeira com arte, dando-lhe forma de santos, pássaros, musas, deuses; expunha suas obras em feiras e centro de exposições, da venda das peças, completava a sua renda.
Sua rotina era hercúlea, a fornalha beirando 800 graus ou mais, a marreta malhava o ferro incandescente ritmadamente, o barulho da marreta amassando o ferro em brasa contra a bigorna, dando forma a uma nova ferradura. Por volta das 15:00 horas, finalizava a última dos cerca de 40 pares diários. O calor da fornalha, o sol inclemente dos dias de verão, o esforço físico desprendido, o exaustava. Para que seu o corpo retomasse à temperatura normal, se recolhia á sombra de uma amoreira, ladeada por uma aroeira, plantadas por ele em seu quintal. Ficava por ali tomando uma fresca. Muito conhecido na vizinhança, cumprimentava à todos os passantes, um dedo de prosa com um ou outro, e assim a tarde e a temperatura caíam.
Havia no bairro um sujeito grandalhão, olhos verdes, porte atlético, com pouco mais de 65 anos, conhecido de todos por major; patente que ostentava desde as fileiras do exército. Dizem ter sido caçador de terroristas, e que na época da ditadura, era tido e havido como linha dura. Usava um óculos de aviador com lentes verde-escuras que lhe escondia os olhos, voz grave, o que lhe dava uma certa aura de mistério e impunha respeito. Todos os dias fazia caminhada; de quando em vez, aos avistar Zelão, soltava uma boa tarde, para logo em seguida dizer:  
- Vida boa, hein?  só tomando um arzinho fresco, né ? - Zelão sorria amarelo, acenava e o major seguia em frente.
Certo tarde o major não só cumprimentou, como parou para um dedo de prosa. E a mesma ladainha se repetiu. Já de saco cheio, Zelão inicia :
- Pois é, nada melhor do que a sombra de uma árvore para dar refrigério ao corpo, ainda mais sendo uma árvore frutífera e a outra medicinal. A natureza é pródiga.
- É mesmo, o você tem razão, e essa árvore o que é? Apontando para aroeira
- Ah... essa é um anti inflamatório excepcional, serve pra tudo. Das folhas faz-se chá para estomatite, e também para curar impotência, da casca, escalda pé para eliminar inchaço das pernas e varizes e os ramos mais grossos curam hemorróidas, emendando, outro dia mesmo, esteve aqui o sargento Ditão pedindo uns galhos.
O major tirou os óculos, seus olhos verdes brilharam como os de uma menina que recebe sua primeira boneca de presente, as pestanas tremiam, a voz outrora grave, embargou; lágrimas teimosas insistiam em rolar pelo canto dos olhos, foi então que ele desceu do pedestal majorengo e num esforço para não se denunciar, mas já se entregando, soltou:
- Você o viu? Quando foi, que dia ? Ele está bem? Não o vejo desde a nossa separação !
Zelão, impávido a tudo viu e ouviu, manteve a fleugma, como se nada de surpreendente houvesse ocorrido, tascou:
- Pelo jeito casou de novo, pois queria saber como é se fazia banho de assento com os ramos grossos da aroeira. Eu expliquei que não é banho, é para lavar bem, tirar a casca e enfiar no rabo!
 


domingo, 9 de novembro de 2014

"A REBECA E O VIOLINO"

Ambos têm o corpo feito do mesmo material, a madeira. De corpo similar, aparentemente parecidos, porém diferentes. Um é confeccionado artesanal e rudimentarmente, usando-se madeira apropriada e especifica, de timbre baixo, suas cordas são tangidas com um arco, sua caixa-de-ressonância é apoiada entre o peito e o ombro, essa é a rabeca. Já o violino, parente nobre da rabeca, também confeccionado artesanalmente em madeira, porém de lei tratada e curada, às vezes por meses; de sonoridade e timbre diferente da primeira. É tocado tangendo-se um arco em suas cordas, apoiando-o sobre o ombro.
Assim como nós - homens e mulheres - esses dois instrumentos musicais, são parecidos, mas não iguais. Bem como os sentimentos que um e outro carrega, nutre. Semelhantes mas não iguais. Uns demonstram, expõe, transgridem, outros se contêm, se fecham, são menos sentimentais, mais racionais. Sentimentos e emoções se irmanam, um é complemento do outro.
Às vezes, as rudezas, as asperezas das nossas emoções mais recônditas, são expostas quando sentimentos são postos à prova. E por mais equilibrados, e que tenhamos auto-controle, algumas situações nos fazem tomar decisões que jamais tomaríamos, não fosse condição do estado emocional. É então que os sentimentos prevalecem. A balança pende, e cai por terra o equilíbrio, o auto-controle. E quem já não desceu das tamancas ? 
A sonoridade rude da rabeca, e a suavidade do sonora do violino.



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"TODA DE BRANCO"

Ôoooo...Irene...ôoooo...ireneeee...ôoooo...Irene...vai buscar o querosene pra acender o fogareiro...

Se o samba é bom, não tem dia, hora, nem lugar, a única exigência é ser safo; homem ou mulher, sem distinção de cor ou credo. Balançou a moranga, arrepiou a pele do costado, chacoalhou o composto e as pestanas, é do samba. 
Dependendo do teor do que foi ingerido, ninguém passa batido, pode-se até perder a percepção da realidade, mas nunca os aromas, os sentidos; mesmo porque o álcool acelera o processo da sensibilidade.
E numas dessas, o relógio bateu, e só quem não chegou foi eu .
Na minha mente só tinha você, deslizando delicadamente, marcando passo, ou requebrando, como se o salão fosse só seu. Marquei.
Passados uns dias, descobri que alguém é contigo. Amém !
Que você possa sambar vestida de branco, com seu colar dourado pendendo,  indo e vindo na direção oposta, teu corpo suado, todo molhado, e tu fingindo que nem gosta, e que nem se importa, o teu olhar dizendo o contrário, procurando no meio da multidão um pode ser, ou não !

sábado, 23 de agosto de 2014

"CANÇÃO ATEMPORAL"

Canções são atemporais, passam-se os anos, o tempo, mas a essência permanece como cicatriz na pele, no inexorável da lembrança; basta os primeiros acordes, a melodia assobiada para dar início à viagem. Uma canção, é trilha sonora de todos os momentos, dos felizes, de encontros, chegadas, despedidas, de festa, dos tristes, das perdas, das idas...da felicidade contida, do sorriso acanhado, tímido, leve, ou escancarado, dos amores perdidos, das conquistas. 
A música, tem um elemento poderoso que nos fazer regressar ao passado, e sentirmos  até mesmo os aromas, clima, cores e sabores, prazeres, dores e lágrimas.
A musica junta quem e o que não mais pode ser juntado. Une ainda mais quem já está junto, dispersa a solidão, traz de volta quem está longe, distante, perdido...ao menos na lembrança.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

"ANGEL"

Como a maré de fim de tarde,
em vagas e mansas ondas,
surgiu para dominar a fúria da ressaca.
apaziguando as águas

O sol refletindo seus raios dourados
na linha d'água
Coloriu o que era azul 
em cristas de prata

O mar amansou-se.
Ainda que não seja a mansidão
esperada

Que seja passageira,
temporã,
que seja uma vaga,
onda menor, que se revolte,
que não saiba onde ir,
mas que desague no agora,
mas que seja em mim













terça-feira, 29 de julho de 2014

"THE LIAR : The greatest of all"

Cafelândia é uma cidade encravada no noroeste do estado de São Paulo. Entre 1916 e 1932, muitos migrantes do nordeste do Brasil, Minas Gerais,  e imigrantes italianos, foram contratados para  trabalharem na agricultura local - como o nome da cidade enseja, eminentemente cafeeira - Com o crack da "bolsa" de 1929 em Nova York, houve uma quebradeira nas fazendas cafeeiras da região. A alternativa que alguns fazendeiros encontraram foi o cultivo do algodão.
Na fazenda Guarantã, o único dia de folga que os colonos tinham era o domingo. O futebol, os bailes, e os folguedos santos, eram as únicas formas de lazer dos lavradores. Escola, só mesmo as rurais, e poucos tinham acesso, mesmo porque os chefes de família prescindiam de toda a força de trabalho nas colheitas, assim sendo, algumas poucas crianças frequentavam as aulas.
De um lado o casario dos migrantes nordestinos, do lado oposto os do mineiros, a ao centro da vila, a dos imigrantes italianos. Havia uma certa rusga entre os colonos, de futebolística à posição política com relação ao movimento constitucionalista; os nordestinos acusavam os mineiros de traidores da causa, e estes em relação aos italianos por serem simpáticos ao nazi- fascismo e ao movimento anárquico, e a não aceitação de namoricos entre filhos de colonos que não fossem descendentes. 
Que caldeirão! Mas domingo é domingo em qualquer parte do mundo, e o futebol mais junta do que separa. 
1941, um domingo qualquer, 8 horas da manhã, as equipes estavam em campo, de um lado os tricolores, camisas listradas em branco e preto, calções vermelhos, meiões da mesma cor, homenagem à bandeira paulista. Do outro a equipe rubro-verde, formada por italianos, espanhóis e alguns portugueses, colonos de fazendas próximas. O jogo se desenrolava sem maiores destaques. Eis que surge seo Zé Donato, alagoano, de cerca de 1,80 m, todo paramentado, vestido como se fora um aboiador, um vaqueiro do sertão nordestino; à cabeça um chapéu de couro, cobrindo-lhe o tronco, um pára-peito,  um jaleco e o gibão sobreposto, perneiras e alpercatas, tudo em couro cru protegendo seu corpo frágil de mais de 90 anos. Voz grave, pede licença e senta-se no barranco que serve como arquibancada.
O jogo segue mais morno que canja preparada solteirona. Seo Donato, impaciente  com a peleja, puxa conversa com seu vizinho de "assento" :
- Apois, homi seu menino. Nos meus tempo de jogador de chutibola,  era muitcho conhecido por ter uma canhota que mais parecia um canhão de 20" (polegadas). Pois antão, certo dia, estava numa peleja, quando me vi cercado por 4 adversárus, num tive otro jeito, dei um chute na pelota, que ela arribou-se, subiu aos ceús, foi-se indo, indo...antonces eu tirei do bolso do carção, a páia, o canivete, e um pedaço de fumo, piquei o bicho, bem picadinho, mas bem picandinho memo, alisei a páia, arranjei fumo nela, enrolei, fiz o cigarro, amarrei, passei na língua, acendi, pitei, dispois de uns 5 minutos, ouvimu um baque forte, o poeirão subiu, corremu pra ver de onde vinha o barui, apois num foi a bichinha que caiu do céu, cavou um buraco no chão de quai um metro de profundeza, e partiu-se em 4 pedaços, parecia uma laranja...cabou-se o jogo de chutibola!
Se é verdade eu não sei, só sei que foi assim !

Minha homenagem a Ariano Vilar Suassuna, escritor, poeta, dramaturgo, romancista, advogado, e um grande brasileiro 



quinta-feira, 10 de julho de 2014

" PERNAMBUCO JOE, O ARGENTINO "

De estatura mediana, um pouco atarracado, de cor parda, um autêntico representante da mistura de raças do nosso país, de olhos castanhos claros, que ele insistia em ocultar por trás de lentes de contato azul-céu; coloria seus cabelos anelados, de loiro; dizia que era para homenagear as suas raízes holandesas - pois não há quem encontre um recifense, que não diga que não seja aparentado de um - fazia caminhada pela orla da praia todos os dias, sempre no mesmo horário, indo ou voltando da academia. Trajava um arremedo de bermuda, mais apertada que cinto de faquir, e tão colorida quanto estandarte de bloco carnavalesco, uma camiseta sem mangas, tão cavada  no peitoril e nas axilas, que dava pra ver os músculos saltando para fora da fantasia. 
Fazia questão de cumprimentar a todos os passantes, um alô aqui, outro acolá, uns o chamavam de holandês, outros de Argentino; apelido que ganhou por ser torcedor fanático da seleção Argentina. Amava a Messi, a Aguero, e Di Maria. Fanático de cantar hino com a mão direita sobre o peito. Seu nome de batismo é Deovaldo de Souza Santos, tão holandês quanto tapioca com manteiga de garrafa; em casa era chamado de Venta de Olaria, pois segundo seus irmãos, o nariz era tão largo quanto a fornalha que cozinha o tijolo. Odiava.
Reunidos em um bar, onde invariavelmente a nata dos endinheirados, jovens adeptos da boa forma, meninas de boa família, meninas de programa, e outros mentirosos, se encontravam para beber e assistir aos jogos da Copa do Mundo 2014. Telões espalhados, calor senegalesco, gente que não acabava mais. O jogo era Argentina e Holanda. O número de torcedores pró equipe laranja era bem maior. Num canto do bar, espremidos entre um dos balcões e os banheiros, estavam os felizes torcedores da equipe Argentina; Deo era o mais entusiasmado, gritava, cantava cânticos xenófobos, xingava os conterrâneos brasileiros, o ambiente foi ficando carregado, demonstrações de descontentamento de parte da torcida contrária. Fim de jogo. Deo, não se conteve, subiu à mesa e desancou à todos, palavras ásperas daqui e dali, em segundos, garrafas atiradas, copos, cadeiras, mesas viradas, a turma do deixa disso pondo panos quentes; mas nada continha o ânimo do argentino Deo, do meio da confusão surge um homem de mais de dois metros, face avermelhada, não se sabe se pela quantidade de chopp ingerida, ou se tomada de cólera, os olhos mais azuis que o mar da praia de Boa Viagem, as mãos maiores que raquete de tênis, vestia bermuda preta com uma águia estilizada na altura das coxas, camisa da seleção alemã, caminhou alguns passos, arrastando  atrás de si, um enorme grupo de descontentes; o sopapo saiu como um chute raivoso, acertando em cheio o queixo de Deo, seu corpo fez piruetas no ar, como fazem os dos ginastas olímpicos, atravessou, mesas, cadeiras e o vitral do bar, indo se estatelar na calçada em frente, e ali permaneceu inerte, braços e pernas abertas, a bermuda molhada de urina, desmaiadão ! Seus confrades argentinos, bateram em retirada, pela brecha aberta no vitral. Por que argentino de nascimento, de sangue, de "tierra", não expõe a cara para receber porrada, prefere a covarde segurança da fuga, preservando o bom couro !
Tá com dó ? Muda pra lá !

segunda-feira, 23 de junho de 2014

" SISOS, JUÍZOS E AMOR "

Não é como adoçar
com mel, açúcar cristal, mascavo,
pedras de glicose de beterraba
ou um colar de pedras preciosas

Brincar de siso
Ficar sem piscar
olhando para o horizonte,
para o infinito
deixando lágrimas escorrerem,
sem motivo

Amar sem calor,
não trás rima,
Ficar sem piscar
brincar de siso,
perder o juízo

Amar é perder o nexo,
perceber todos os sentidos
Não é como uma xícara de café frio,
sem gosto, não serve,
não sorve, amarga...

Ainda são mãos,
sorrisos, um ar na face,
um riso,
uma gargalhada na noite,
e outros rios de risos pela madrugada

É a nudez,
imagens difusas e pálidas
É suplantar, aplacar e encerrar os medos
Amor não aceita juízo de valor,
vistas, não impetra recurso,
pode-se perde-lo por decurso de prazo,
mesmo tendo feito rogativa.

E á luz das vontades, dá-se por encerrado !

















domingo, 15 de junho de 2014

"PORQUE NÃO ME UFANO" - Alienar-se, esquivar-se, ou se desfraldar ?

Há anos, muitos anos mesmo, deixei de me importar com as coisas da copa do mundo; o clima envolvente, aquela aura, a alegria desmedida,  vestir-me com as cores vibrantes da bandeira, juntar amigos e assistir às partidas, regada a cerveja e comendo churrasco. Tudo isso ficou para trás. Não tenho a mesma gana de antes, o mesmo tesão. Gosto de futebol, aprecio com moderação, embora nem sempre contida; tenho lá meus momentos de rasgar a fantasia, todavia, isso deixou de ter uma importância ou certa relevância para mim.
Hoje tenho uma visão mais crítica em relação à Copa do Mundo, principalmente essa em que a sede é o Brasil. Concordo com as manifestações contrárias, sem as desmedidas demonstrações de violência. Infelizmente, essa que seria uma festa para os povos, está deixando uma conta enorme, e quem vai pagar, seremos nós, o povo brasileiro. Gastos desnecessários em algo que não vai deixar absolutamente nenhum legado. E nenhum outro esporte teve ou tem esse mesmo investimento, atletas e esportistas são relegados em detrimento a copa. As olimpíadas estão à porta, e será mais um filão de roubalheira. E os atletas continuam a não ter nenhuma visibilidade.
Os problemas sociais, a falta de infraestrutura e investimento na saúde, educação, segurança pública, continuarão, permanecerão igual ou pior do que antes da mal fadada Copa.
A dinheirama gasta na construção de estádios privados às custas do erário público, foi desmedida; mesmo sabendo de antemão que clubes beneficiados com as obras, não terão como honrar suas dívidas a médio prazo, e talvez nem a longo. Sem contar a corrupção de A a Z.
Não tenho porque me ufanar, achar que o futebol está acima de tudo e de todos. Ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor, não significa estar ou ficar embandeirado e de olhos fechados para os desmandos, para a corrupção, para o descaso com a população, nem muito menos esquecer que as autoridades que proporcionaram a Copa, são as mesmas que irão concorrer às eleições de outubro. A exata noção de patriotismo, é justamente enterrar nas urnas, essa  sede de   poder, essa fome de usurpação, de roubalheira, corrupção desenfreada dos políticos, não votando em candidatos profissionais, não reelegendo candidatos; muito menos dar chances a oportunistas que se aproveitam da fragilidade política desse momento pelo qual a nossa amada nação passa.
Por esses motivos é que não me ufano. A seleção não me representa, não está comprometida comigo enquanto povo. Não demonstram o menor constrangimento diante de tudo que é mostrado na mídia, o comprometimento deles é com o dinheiro que seus patrocinadores estão depositando em suas gordas e polpudas contas corrente
E a FIFA, mentora de tudo isso, quer mais que o povo se dane !
Por isso não me ufano. Gosto mas não engulo, vomito !

terça-feira, 13 de maio de 2014

" NÃO EXISTE NINGUÉM FEIO, VOCÊ É QUE BEBEU POUCO"

Quem nunca passou noites e noites insones, tentando achar explicações para um pé na bunda, ou uma desculpa qualquer para terminar uma relação desgastada ?
Tanto uma quanto a outra, nos rouba noites de sono. Se for quem levou o "pé", as noites são as piores da sua vida; não há chá ou suco que resolvam a questão da insônia. Por outro lado, quem dá o fora, o perdido, o off, despluga; passa uns dias meio sobressaltado, com medo de que a ex ou ex, armem um barraco virtual, até mesmo real. Barraco é barraco, seja ele nas redes sociais, ou em frente de casa.
Mas o pior mesmo, é quando bebemos demais, e tudo fica lindo e maravilhoso. Cachaça é como dinheiro, se não tiver moderação se fode ! Haja dor de cabeça, e melancia para curar a ressaca. E ressaca de amor de carnaval e de balada, são as piores.
Já acordou e se deparou num quarto 4x4 apertado, recendendo a álcool, cheiro de cigarro mal apagado, suor azedo e com alguém ao seu lado, e que você tem apenas uma vaga lembrança de quem seja - desde que esteja em decúbito frontal - ? E que ao acordar, a tal figura
é uma mistura de Dragão de Komodo com Michael Jackson ? Pois é, álcool, balada e tesão, não se misturam. O resultado pode trazer muitas consequências desastrosas.
E lembre-se :
Não existe ninguém feio, você é que bebeu pouco !

quarta-feira, 9 de abril de 2014

"MIMOS, TPM E CHOCOLATES !"

Acordar e ainda ter vontade de dormir, preguiça, dormitar, espreguiçar e tentar despertar. A vontade é permanecer na cama, deitada e se possível for, sem nenhum contato com o mundo exterior.
Mulher é um bicho interessante, sangra. E quando chega esse período, ciclo, o humor na mulher inexiste ou hiberna. Ficam intolerantes, irritadiças, por vezes choronas, sentimentais, sentindo-se feias. Algumas apresentam pequenas erupções cutâneas, olheiras, manchas na pele do rosto;
outras ficam estressadíssimas, mudam até o tom da voz, nessas, qualquer barulho, mínimo que seja, é motivo para soltar um grito esganiçado - não todas, algumas - de  fazer estourar ponteiro marcador de decibéis, portanto, não as irrite. 
Ser mulher não é fácil, principalmente no período menstrual. Até que ele chegue, as cólicas prenunciam todo esse processo descrito nas linhas acima.
Se o homem é o namorado, "ficante", noivo, marido, companheiro, amigo, colega de uma mulher que esteja próxima, ou no período menstrual, acordai-vos ! Pois, ela está mais sensível, com todos os sentidos aflorados. De uma para outra, em menor ou maior grau, ficam mais carentes; querem colo, proteção, carinho, quietude, solidariedade, até mesmo momentos de absoluta solidão, porém tudo ao mesmo tempo.
São tão diferentes de nós, homens, que até o tesão é maior nesse período.
Se a sua, mulher, está nessa fase, não a contrarie. Se ela se mostrar irritadiça, não discuta, abra a porta, saia sem alarde; compre uma caixa de bombons, de preferência dos que ela mais gosta.
Presenteie, ela vai amar e você vai ficar bem. Espere as próximas quatro semanas, que todo o processo se repetirá.
Boa sorte !

quinta-feira, 27 de março de 2014

"SALADA DE HORTELÃ, ARDE MAS SÓ FAZ BEM !"

Os árabes, muito contribuíram para a evolução da raça humana, nos mais vários campos; da ciência a gastronomia. Povo muito evoluído; assim como os persas, egípcios, os gregos e os troianos. Quase primos entre si;  muitas das suas descobertas ainda são utilizadas nos dias de hoje. Saúdo-vos !
A hortelã - erva rasteira e aromática, planta da família das labiadas, muito usada na culinária, como complemento ou no tempero de muitos pratos; usa-se também como digestivo in natura ou em chás - transita na culinária, como a sinceridade nas relações humanas, interpessoais, emocionais e sentimentais. Não só sendo um complemento, mas a essência, aquilo que dá a liga, que junta, que aproxima, perfuma, que traz luz e lustro às relações.
Nem sempre muito bem digerida, a sinceridade provoca engulho, náuseas, introspecção, choque, saia justa, constrange. Pois, nem sempre nos preparamos para ouvir aquilo que não queremos.
Somos feitos de "achismos", achamos por conveniência que tudo está bem, quando não está, achamos que somos, quando apenas estamos. Comodismos à parte, nada é finito, mas sim renovável.
Uns estão à busca, à caça da liberdade interior e exterior, das variáveis da felicidade passageira, ou dela em tempo integral, seja por algo material, sentimental, emocional, espiritual, carnal, sexual, mas prazeroso. O ser humano e sua busca constante, do ser ao ser, do estar, da existência, do que lhe aproxime da felicidade, do amor enfim,  sempre e sempre na busca; renovando-se, expondo-se à luta incessante do seu "eu" interior, contra os moinhos de vento.
A hortelã é o contra ponto, tenra, macia e ao mesmo tempo ardente, junta os sabores, perfuma, aromatiza, fazendo com que possamos digerir até mesmo os pratos mais pesados e condimentados da vida.
E viva a liberdade !

segunda-feira, 3 de março de 2014

"NEGA, TU NEM DEIXOU UM BILHETE - PARTE II"

O som do samba enredo cantado por inúmeras vozes, ainda ecoava no ar, a batida forte da percussão era repecurtida, reverberando no peito, no corpo. Á medida que se distanciava, caminhando pelas ruas adjacentes, tudo ia ficando para trás; alegorias, fantasias, passistas, baianas, mestre-sala, porta-bandeira e seus rodopiares graciosos. Parou na porta de um boteco pé rachado, pediu uma Yaúca com limão, dose dupla, sorveu fazendo caretas, enxugou a boca com a palma da mão. Seus passos ficaram mais marcados que sambista em dia de desfile; seguia seu rumo medindo a calçada de uma lado a outro.
Entre cochilos e despertares, conseguiu desembarcar na estação Vila Matilde do Metrô, berço do samba paulistano, caminhou até o ponto da lotação 3731 - Metrô Vila Matilde-Shopping Aricanduva. Se ajeito no assento, apagou. Sonhava, rememorava antigos carnavais, rodas de samba regadas a cerveja, de tira-gosto, calabresa acebolada, torresmo e churrasquinho de gato, uma cachaça para esquentar as cordas vocais. A mulherada sacudindo a moranga, cheias de amor pra dar, mais cheirosas do que filha de cabelereira. E foi uma delas que sacudiu seu coração vagabundo. Entre letras de samba canção, dançar coladinhos, beijos estalados e amor jurado, foram morar juntos.
Seu coração era vadio, apaixonava-se, e desapaixonava-se na mesma velocidade, mas a nega Juju, era a dona do seu amor. Até um dia, que cansada das suas traições, o deixou. Se foi, sumiu na imensidão de São Paulo.
Restou a Pedro Henrique, chorar suas mágoas, em letras de samba compostos em mesas de bares, noites e noites adentro, tendo a cerveja e a cachaça como companheiras. Já bêbado, chorava feito cão sem dono. E carnaval, após carnaval, ficava na grade do Sambódromo, procurando em vão, a sua amada no meio dos componentes das escolas de samba.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

" CLUBE DAS AMARGURAS "

A alma do cronista, a sua arma, é o senso de observação, sua inspiração é o cotidiano. Uma palavra aqui, uma conversa fiada ali, o ouvido e olhar atentos, uma notícia, uma manchete que seja, é o mote; mas se perder alguma coisa, lá se foi sua principal fonte.
Nos dias atuais, as redes sociais, são fontes inesgotáveis de assuntos que podem virar crônica, nem sempre aproveitáveis, mas que são, são !
Outro dia lendo uma postagem, percebi um comentário, li, e vi que era um tanto quanto jocoso, cheio de desdém, e com uma pontinha de amargura, até mesmo lambido de despeito e inveja;  e que fora feito por uma senhora.  O post, era algo que falava sobre os homens, bem humorado, curto e direto. Mas, senti que suas palavras eram carregadas de amargura, cortantes como navalha cega, transbordando ressentimento contra os homens, sentimentos tão feios, tão carregados de energias ruins, quanto sua figura apagada na foto do perfil; um rosto carrancudo, enfeiado pelo seu rancor. Então pensei : 
Quantas pessoas se tornam assim, amargas, ressentidas, amarguradas, enfeiadas, desprovidas de beleza exterior e interior, por carregar o peso de uma desilusão amorosa, por não atingir objetivos na vida, frustrações das mais diversas, infelicidades, ou até mesmo ter sido mal amadas, em outras palavras, mal comidas? Estou falando de pessoas, não especificando o sexo.
No caso, essa era uma mulher, como  está implícito. Observei mais atentamente, e reli outros posts, então descobri que essa "baranga", desculpem o mal jeito, essa "matrona de pedra", é totalmente do contra. Seus comentários são depressivos, não há nada otimista, salvo, devo acrescentar, as mensagens religiosas; o que é louvável, pois precisamos ao menos desse alento. Entretanto, está sempre querendo salvar uma alma, ou ganha-la para o seu rebanho.
Quem teria sido o fedegoso que a fez sofrer e, que agora temos que aturar as suas amarguras?
Deu-me, uma vontade de dizer-lhe:
- Minha cara senhora balzaca, por quê vossa senhoria não cria o clube das mal-amadas ?
Pessoas assim, acabam por influenciar negativamente, energeticamente, todas as outras.
Vai de retro!




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

"AMOR E PRAZER"

Luz difusa, roupas displicentemente dependuradas no espaldar das cadeiras, sapatos e sandálias, cuidadosamente postos lado a lado, como se um fizessem parte do outro. Rádio ligado, volume baixo, tocando Al Green, Marvin Gaye, Diana Ross; garrafa de um vinho chinelo vazia em cima da mesa, copo com sobras do vinho, outro com marcas de batom, latas de cerveja ainda pela metade. Uma calcinha minúscula, branca como a neve, com detalhes rendados e, lacinho discreto na frente, jogada na cama; sutiã também branco, ladeava a lingerie, lençóis e cama, desarrumados. Ar condicionado ligado, refrescando o ambiente. Espelhos espalhados por todas as paredes e parte do teto; por uma claraboia, podia-se visualizar a noite estrelada, e a lua magnificamente prateada. 
Barulho manso de água caindo na banheira, como se fosse uma pequena cachoeira, contrastava com a música do ambiente. Corpos em frenesi, bailado de mãos e pernas, respirações profundas e gemidos,  bocas se encontrando, vai e vem, ora intenso, ora lento, compassado; o vapor saindo da água e dos corpos, o borbulhar turbinado do jato na água, estimulava ainda mais à entrega do prazer. Sussurros, línguas se encontrando, mãos que se dão, pernas se entrelaçam, ventres colados, dança suave, olhos nos olhos, suspiros profundos, gemidos alternados, entre abafados e quase um grito, vai e vem, balé de corpos...
Silêncio, só a respiração leve, corpo no corpo, desejo saciado, amor trocado, mãos nas mãos, cabeça no peito, adormecem...


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

"DNA DE MÃE"

Não sei patavinas de física, química, biologia, essas coisas que muitos de nós estudamos, mas em verdade, pouco ou nada nos ajuda na vida prática, a não ser na alquimia da cozinha, na elaboração de pratos, bolos, doces, salgados, etc. Que me perdoem, mas eu detestava essas matérias.
Hoje acordei como uma dúvida latente, persistente; pensei, repensei, mas acredito que não encontrei nada que traduza a palavra : Mãe. Sei que  doutos cientistas se debruçam a estudar as células, células-tronco, átomos, núcleos, DNA, etc. Passam anos e anos de suas vidas a desvendar mistérios quase insolúveis, para o bem da humanidade. Mas essa palavra, carregada de sentimentos profundos, de dores, de longas esperas, de dedicação, doação, de noites e dias sem pregar os olhos, sem descanso, mas cheias de amor, carinho, doses de paciência, colo quente, mãos delicadas,  que ás vezes faz doer quando desfere umas palmadas, as mesmas mãos que são estendidas quando estamos nos desviando do caminho, caindo num precipício, ou quando necessitados de uma palavra, ou gesto de conforto, as mãos que nos reabrem as portas, que um dia cruzamos indo buscar novos rumos, e que nos acolhe em regresso. Mãe devia ser imortal. Não como heróis de ficção, imortais assim como é o seu amor por nós, seus filhos.
Mães postiças, emprestadas, de nascedouro, de coração, por adoção, mãe é mãe e ponto final.
Que a sua, a minha, a nossa, seja imortal, não importando para onde é que ela vá, quando daqui sair. Que seja assim para todo o sempre.
Benção mãe !

domingo, 19 de janeiro de 2014

" MEMÓRIAS DE UM SONHADOR "

Acomodou-se na cadeira de praia, bebeu um gole de café, acendeu um cigarro, olhar perdido no céu, como quem procura estrelas distantes. Vento sul trazendo um frescor na noite quente de verão; mais um gole de café.
Pensava nas palavras que acabara de ouvir. Riu sem jeito; chegou até mesmo a concordar, não com tudo que haviam dito, mas em parte. Tentou lembrar quando foi a última vez que alguém traçou seu perfil , em poucas, sinceras e quase deselegantes palavras. Não conseguiu, ou não quis lembrar.
Rememorou apenas os bons momentos que tivera em sua vida. O quanto bem viveu, os prazeres, alegrias, viagens, lugares, pessoas, os amores, os sotaques, o clima de cada região, o modo de vida, histórias e estórias contadas e aprendidas. O quanto foi feliz e a quem felicitou. Lembrou de sorrisos, risos, e alegrias.
Era sim, um sonhador, tinha devaneios; talvez influenciado por sua veia de escritor/poeta/cronista, pois segundo diz a lenda, um escritor vive de sonhos, história e estórias e observações. Preferia ter asas para voar seus sonhos, a ter os pés ancorados, fincados na realidade massacrante. Porém, isso era apenas um meio de fuga, uma fantasia, ele também  vivenciava a dura, aparente realidade cotidiana como qualquer outro ser vivente. O oposto é quase irreal.
Devaneios, sonhos, ainda se pode ter, sem ter de pagar impostos.






quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

" HEIS AÍ A RESPOSTA "

"Água de rio abaixo,  por onde passa,  jamais volta ! "
Na vida, quase tudo é mutável, cíclico, temporário, passageiro, reciclável, reaproveitado, usável, descartável; eu disse quase tudo, não tudo. Lembrei-me de Tim Maia, cantor e compositor brasileiro, que dizia : "O tudo é nada, e o nada é tudo !" -
Para que possam entender onde quero chegar, vou transcrever o que postei numa rede social, em um comentário que fiz, em resposta uma reflexão que uma amiga havia compartilhado. E que dizia mais ou menos assim :
- O rio corre para o mar, se encontram, mar e rio, se juntam, se misturam, a água se evapora, se condensa, vira nuvem, que torna-se chuva, se precipita, cai na terra, nos rios, que correm para o mar...
Seria esse um exemplo cíclico, mutável, temporário, ou reciclável ?
Seríamos nós, os seres humanos, o exemplo mais bem acabo da reciclagem ?
Nos transformamos a cada novo dia. De um espermatozoide, a um embrião, e desse a uma criatura, que evolui, e  se desenvolve no ventre da mãe; nasce, cresce, se desenvolve, alcança a infância, juventude, maturidade, o declínio com a chegada da velhice, morre, e vira adubo que fertiliza a terra. Seria esse o ciclo da vida, não fosse as doenças e as fatalidades que impedem alguns alcançarem ou passarem por todas essas fases. Essa é a lei da vida também, sem entrar em méritos religiosos.
Sou um ser em constante mutação, temporariamente um oceano, que de quando em quando, tenho meus momentos de calmaria, águas revoltas, depois tranquilas, mas que também evapora, se condensa, torna-se nuvem, vira chuva e se precipita em forte aguaceiro. Para depois escorrer pela terra, pelas curvas sinuosas dos rios e voltar para o mar.
Essa é a minha visão. A vida se transforma.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

" ESPERANÇA MENINA "

Recolhidas as páginas em branco, a caneta, as ideias, as inspirações e as vontades, nada mais resta a não ser ver o tempo passar. Imaginar o papel sendo tingindo de cores, azul céu, verde musgo, amarelo ouro, branco nuvem, marrom terra, transformando cores em ilustrações vivas, imagens animadas, sol, céu, pássaros, rios, árvores, sons, crianças correndo, estradas de terra batida, poeira, cães, cavalos, animais cruzando o caminho em zigue-zague.
A imaginação cria, transforma, torna real o inimaginável da razão, renova os sonhos; o que é apenas esperança otimista, no realizável cerebral.
Sonhar não paga nada, não cobra nada, a esperança é irmã da felicidade.
Ame, sonhe, realize. E se não realizar, durma, espere amanhecer o dia, então recomece tudo de novo.

domingo, 29 de dezembro de 2013

" COBERTOR CURTO, CABEÇA DE FORA "

Se puxar e cobrir a cabeça, descobre os pés, se virar de lado, mal cobre o tronco; em noites frias, não aquece o suficiente, entre tiritar de frio e deixar o corpo exposto, o mais sensato é cobrir os pés, as mãos  e o ventre.  A cabeça, mesmo exposta, vai viajar na imaginação, e nos levar a lugares de clima mais quentes. Cobertor curto é assim, cobre um santo, descobre outro.
Uma relação sem  amor, não difere muito dessa analogia. Não existe amor sem troca; amor unilateral é penso, torto, uma nau que tende afundar, um cobertor curto.
Gostar, gostar é um passo para amar. E amar, enseja uma somatória de gestos, de atitudes, de tempo decorrido, de trocas, de aproximações, de enlaces, laços, franqueza, solidariedade, cumplicidade, falar com os olhos, ouvir com a razão. Estar presente não apenas fisicamente, mas ser presente em todos os momentos, nos bons e nos maus. Os bons momentos todos querem desfrutar. E nos maus, é que realmente sabe-se quem está na relação. Se não houver sincronia, sintonia, doação, e a pluralidade, a tendência é o esvaziamento. 
A unilateralidade do amor numa relação, também é egoísta. Conquistar o outro, é um segredo não revelado, quando o outro se deixar conquistar sem medos ou reservas. Amar incondicionalmente é utopia, inexiste.
Por fim, posicionar-se egoisticamente diante da relação, como se ela fosse apenas uma aposta, um vamos ver, um passa tempo, ou  por outro lado, uma ouvidoria onde se desnuda todas as mazelas da vida, ou que se possa declamar um rosário de chatices e problemas, uma cantilena de palavras repetidas, problemas quase imortais, sucessivos, cansativos e que não dá espaço pro amar, pro amor.
Amar é verbo transitivo direto. Se direto não for, é gostar, e gostar ainda não é amar. E amar-se acima de tudo e de todos, é egoísmo puro.
Então, o melhor a se fazer é adquirir um cobertor maior, preferencialmente de casal, macio e quentinho, ou um lençol. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

(4) Salim Slavinscki

 

Quase todas a formas
Existem amores que permeiam, prosperam, permanecem, aprofundam, ficam.
Existem amores que permeiam, insistem, persistem, fortalecem, ficam.
Existem amores que permeiam, existem, florescem, crescem, se ampliam, ficam.
Amores que permeiam, vem, que vão, voltam, uns são, outros não.
Amores guardados, que existem, insistem, que ficam ou não.
Existem amores, que vem, que partem, q...ue sofrem, que choram ou não.
Existem amores segredados, escondidos, declarados, embandeirados, desfraldados, contidos, retidos, vadios ou não.
Existe amor que passa, sem graça, sem riso, sorrisos, alegria, esperança, gargalhadas, que ficam guardados, chorados, livres, que passam, como chegam e se vão.
Existe amor, de mãe, de pai, de filho, irmão...
Existem tantos amores, tantas formas de dize-lo, expressa-lo, torna-lo possível; purga-lo, esquece-lo, vive-lo ou não !
Existe o amor próprio, egoísta, fundido, doente, amor que dói, amor que se sente, que se dá, que se recebe, amor de tantas formas, de todos os jeitos, de confete, de brinquedo, de verdade e sem enredo. Amor de ontem, de hoje e de sempre !Ver mais

(4) Salim Slavinscki

sábado, 7 de dezembro de 2013

" MARÉ VAZANTE "

Fiquei observando o mar, a maré indo e vindo, o que trazia, o que levava. E quando subiu, dei as costas, vim embora. Sei que vai levar tudo o que encontrar pela frente mesmo.
E no outro dia, ela vem, e vai, vai e vem, continuando indo e vindo, numa dança de véus de espumas, ondas simétricas e assimétricas, balé composto de ruídos e estrondo, de silêncios só quebrados pelo assobio dos ventos, uma ópera da natureza. O mar, é a  uma das minhas únicas certezas na vida; assim como o dia nasce, o sol vem, a noite cai, as dores se vão, os amores um dia terminam ou se fundem, os problemas de toda ordem se findam.
Caminho com essas certezas na cabeça. Bar, café expresso, forte, meio amargo, porém bem quente; sorvo devagar, imaginando poder acender um cigarro e me perder na fumaça cinza-azulada que dele emana. As lembranças formam imagens, ora em movimento, ora estáticas, uma voz pequena, quase menina, um rosto juvenil, um sorriso tímido, olhos vivos, que mal conheci, não vi, os cafés que não bebemos, os bares, restaurantes que não frequentamos, que só ficaram nos planos. Ainda não são apenas silhuetas, resistem, persistem, vão e voltam como a maré das primeiras horas, não com o mesmo perfume, pois desse não senti a fragrância. Bebo, pago, saio.

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