segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

" SAMBA, AGONIZA MAS NÃO MORRE "

À época, a casa era um dos poucos redutos de samba em São Paulo, onde se podia curtir as raízes sambistas, uma fortaleza, uma resistência aos modismos. De onde deve ter saído a frase: que o samba agoniza mas não morre. Toda sexta-feira o couro comia. Gente bonita, bem trajada, negros, mulatos, brancos, amarelos, enfim, pessoas que queriam desfrutar do prazer da boa música.
Naquela noite chegou em casa pronto, para e, em condições de... sacudir a moranga, dar um tapa no beiço, mas antes teria que driblar a dona da pensão. Mas para sua surpresa, a nega estava montada, cheirosa e mais bonita que filha de costureira em dia de batizado. E foi logo dizendo depois de tascar um beijo bem molhado na boca do marido João Bonito -  esse era seu nome civil :
Hoje nós vamos pro samba juntos, já estou com os convites nas mãos !!
Entre incrédulo e assustado, viu seus planos se esvaírem pelo ralo. A noite não seria só dele, teria que compartilhá-la com Denise.
- E agora ? Falou para si mesmo 
- Caraca ! A nega Faty vai estar lá me esperando, rodei, que desculpa vou dar ? 
Faty era uma mulata de 1,80 m, linda, olhos verdes, que era a filial de João Bonito.
Banho tomado, cheiroso feito filho de barbeiro, mais alinhando que mestre sala, o coração batendo  mais que pestana de cego. E a esposa cheia de amor para dar, apressa-vá-o.
- Bora nego, o pessoal tá lá fora no carro esperando ! Ô nego mole ! Boraaa !
Entrou no carro, cumprimentou os primos - pois é, no total eram dois veículos, e quatro casais - e pouco falou até chegar ao samba.
O clube ficava no bairro da Liberdade, parte oriental da cidade, o prédio era estiloso, calçada cheia, gente que não acabava mais. Entraram, e o samba já estava correndo solto. Se instalaram em duas mesas ao lado da pista. E o samba sendo rasgado.
Dançaram à bessa, beberam, suaram mais que cuscus de geladeira. Lá pelas 3 da madrugada, Epifânio, seu primo, o chama de lado e lhe faz confidência ao ouvido.
- Negão, se liga que a nega Faty  e a Sônia Mara, estão vindo nessa direção !
Mais rápido que notícia ruim, João Bonito, se levanta e sai da mesa empurrando quem estivesse
pela frente. Dizem quem tem, tem medo ! E para não contradizer o ditado popular, João, quase agachado se esgueira até o toilete reservado aos cavalheiros. Escondeu-se, lá dentro, na esperança de resguardar sua integridade física. Estava mais suado que tirador de espírito. A garganta mais seca que língua de papagaio de viúva.
Na porta do toilete, muvuca, vozerio, confusão.
Distinguiu, mesmo que com o som do samba bem alto, a voz da nega Faty !
- Xô entrarrrr nessa porraaaaa !! Canalha, safado, pilantra, vou te rasgar a cara toda !
Vociferava a bela mulata, e o bonitão covardemente assentado ao vaso sanitário, tremia mais que vara de bambu em dias de ventania. Rogava aos céus para  que a moça não adentrasse ao recinto.
Num vacilo dos seguranças, a mulata irrompe banheiro adentro, vasculha cada reservado, até que encontra seu -  até poucas horas atrás - príncipe de ébano.
Distribuiu vários sopapos, chutes e, todas as armas que uma mulher dispõe nessas ocasiões, as unhas eram as preferidas.
Os seguranças intervêm, a turma do deixa disso também. Acalmados os ânimos, e com a porta fechada para que ninguém mais pudesse entrar ou testemunhar o quiprocó. Faty exige satisfações de João Bonito. Mão nas cadeiras ( e que cadeiras ! ), olhos mais verdes ainda, mão direita no colarinho da camisa do bonitão, agora todo desalinhado.
- Então seu safado, quem é a sirigaita que tá contigo naquela mesa ? Eu aqui te esperando, e tu me chega com uma mulher engatada nos braços ! Qual é ? Diz aí Jão !
A voz quase não saía da boca do Don Juan da zona leste. Em murmúrios, as palavras vão saindo.
- É que...é que..
- É que, o quê ? Vai logo, diz aí porque senão te arrebento !
- Ela... ela...ééé...mi ..mi...mi...
- Mimi é o cacete ! diz a mulata, já pronta para dá-lhe outro sopapo
- Ela é minha senhora, minha esposaaaa ...!
- Tua esposaaaa... ? Como ??
- Eu sou casado com ela a qua... qua.. quase dez anos !
O sopapo estalou na cara, foi ao chão, mais tonto que passarinho fora da gaiola, ainda recebeu outro golpe, dessa vez desabou. Levantaram-no, posto em pé, ainda que meio zonzo.
- Então tu é casado ? E nunca me falou nada, seu pulha ! ( Faty )
- Mas você num perguntou, neguinha !! ( João )
O murro foi certeiro, arrebentou a mobília, os dentes da frente, que mais pareciam madre-pérolas, ficaram ao chão, misturados à urina derramada.
Não se sabe ao certo, se foi restaurado o sorriso com seus próprios dentes, ou se são implantes. O que sabe com certeza,  é que já não mora mais com a matriz, e a filial continua linda, charmosa, livre, leve e solta. E que toda sexta-feira dá o ar da sua graça no samba !
Quem é do samba, chora...ao romper da aurora...





Um comentário :

  1. Cabra safado, apanhou bonito, tomara que a matriz tenha dado uns safanões em casa, mas provavelmente não o fez... gostei muito.

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