Fiquei observando o mar, a maré indo e vindo, o que trazia, o que levava. E quando subiu, dei as costas, vim embora. Sei que vai levar tudo o que encontrar pela frente mesmo.
E no outro dia, ela vem, e vai, vai e vem, continuando indo e vindo, numa dança de véus de espumas, ondas simétricas e assimétricas, balé composto de ruídos e estrondo, de silêncios só quebrados pelo assobio dos ventos, uma ópera da natureza. O mar, é a uma das minhas únicas certezas na vida; assim como o dia nasce, o sol vem, a noite cai, as dores se vão, os amores um dia terminam ou se fundem, os problemas de toda ordem se findam.
Caminho com essas certezas na cabeça. Bar, café expresso, forte, meio amargo, porém bem quente; sorvo devagar, imaginando poder acender um cigarro e me perder na fumaça cinza-azulada que dele emana. As lembranças formam imagens, ora em movimento, ora estáticas, uma voz pequena, quase menina, um rosto juvenil, um sorriso tímido, olhos vivos, que mal conheci, não vi, os cafés que não bebemos, os bares, restaurantes que não frequentamos, que só ficaram nos planos. Ainda não são apenas silhuetas, resistem, persistem, vão e voltam como a maré das primeiras horas, não com o mesmo perfume, pois desse não senti a fragrância. Bebo, pago, saio.
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