A vida para uns passa rapidamente, já para outros, segue seu curso lenta e vagarosamente. Nos damos conta da passagem dos anos, dos tempos, de várias maneiras; quando nos vemos no espelho mais detidamente, e reparamos as rugas no rosto, os pés-de-galinha, as entradas e os cabelos ralos no topo da cabeça, ou quando as chaves caem no chão e temos dificuldade para abaixar e levantar.
Confesso que tenho um problema de relacionamento com a passagem do tempo, não a aceito muito bem, dizem que é a tal de SPP (síndrome de Peter Pan), trocando em miúdos é a não aceitação do envelhecimento.
Recebi esses dias o convite do enlace matrimonial (nossa como estou formal e antiquado!), da filha de um casal de queridos amigos/primos, Renata Goes. Fiquei feliz e lisonjeado, para não dizer exultante. Era um primor de convite, papel cartão bem trabalhado graficamente, mais parecia um objeto de arte, enfim, muito bonito. Li, reli, várias vezes, até viajar no tempo(nosso cérebro tem essa capacidade, uns menos, outros mais), e relembrei daquela menininha loiríssima, e de seu irmão Rafael, sentados na escada do sobrado de seus pais, ambos com carinhas inchadas, denunciando que haviam acabado de acordar. Na parte debaixo, era uma loja de bolsas e calçados de onde seus pais tiravam o sustento; situada no centro do bairro da Penha em Sampa. Vez ou outra passava por ali para uns dedos de prosa, filar um café e contar anedotas, as crianças adoravam. Me despedia várias vezes - pois tanto Renata, quanto Rafael, os dois contando entre 5 ou 6 anos - insistiam para eu repetir as anedotas mais que velhas e desgastadas, e riam de se emboletarem.
Sempre que podíamos estávamos juntos, eu e os primos; íamos a shows, ou mesmo curtir a noite paulistana. Ao regressarmos, fazíamos uma sopa para curar as canjibrinas e cervejas, que sabidamente iriam maltratar nossos fígados no pós noitada. As crianças ficavam aos cuidados da avó materna, e sua aura de matrona-italiana, que sempre nos pedia para diminuir o som do falatório, senão acordaríamos os guris. Bons tempos.
Renata cresceu, formou-se, tornou-se mulher, linda e exuberante, filha amorosa, carinhosa, e com o mesmo rosto angelical e ar de menina.
Custa-me entender essa passagem dos anos, eu que já sou avô de de cinco lindas crianças, parecia para mim, que haveria um vácuo de tempo em que nada mudaria, os filhos seriam crianças para sempre, e que nós, os pais não seríamos os filhos dos nossos filhos.
A vida segue seu rumo, melhor não parar, vamos pegar esse bonde, melhor, esse metrô !
* Para Renata e todos os filhos que se casam
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