terça-feira, 29 de julho de 2014

"THE LIAR : The greatest of all"

Cafelândia é uma cidade encravada no noroeste do estado de São Paulo. Entre 1916 e 1932, muitos migrantes do nordeste do Brasil, Minas Gerais,  e imigrantes italianos, foram contratados para  trabalharem na agricultura local - como o nome da cidade enseja, eminentemente cafeeira - Com o crack da "bolsa" de 1929 em Nova York, houve uma quebradeira nas fazendas cafeeiras da região. A alternativa que alguns fazendeiros encontraram foi o cultivo do algodão.
Na fazenda Guarantã, o único dia de folga que os colonos tinham era o domingo. O futebol, os bailes, e os folguedos santos, eram as únicas formas de lazer dos lavradores. Escola, só mesmo as rurais, e poucos tinham acesso, mesmo porque os chefes de família prescindiam de toda a força de trabalho nas colheitas, assim sendo, algumas poucas crianças frequentavam as aulas.
De um lado o casario dos migrantes nordestinos, do lado oposto os do mineiros, a ao centro da vila, a dos imigrantes italianos. Havia uma certa rusga entre os colonos, de futebolística à posição política com relação ao movimento constitucionalista; os nordestinos acusavam os mineiros de traidores da causa, e estes em relação aos italianos por serem simpáticos ao nazi- fascismo e ao movimento anárquico, e a não aceitação de namoricos entre filhos de colonos que não fossem descendentes. 
Que caldeirão! Mas domingo é domingo em qualquer parte do mundo, e o futebol mais junta do que separa. 
1941, um domingo qualquer, 8 horas da manhã, as equipes estavam em campo, de um lado os tricolores, camisas listradas em branco e preto, calções vermelhos, meiões da mesma cor, homenagem à bandeira paulista. Do outro a equipe rubro-verde, formada por italianos, espanhóis e alguns portugueses, colonos de fazendas próximas. O jogo se desenrolava sem maiores destaques. Eis que surge seo Zé Donato, alagoano, de cerca de 1,80 m, todo paramentado, vestido como se fora um aboiador, um vaqueiro do sertão nordestino; à cabeça um chapéu de couro, cobrindo-lhe o tronco, um pára-peito,  um jaleco e o gibão sobreposto, perneiras e alpercatas, tudo em couro cru protegendo seu corpo frágil de mais de 90 anos. Voz grave, pede licença e senta-se no barranco que serve como arquibancada.
O jogo segue mais morno que canja preparada solteirona. Seo Donato, impaciente  com a peleja, puxa conversa com seu vizinho de "assento" :
- Apois, homi seu menino. Nos meus tempo de jogador de chutibola,  era muitcho conhecido por ter uma canhota que mais parecia um canhão de 20" (polegadas). Pois antão, certo dia, estava numa peleja, quando me vi cercado por 4 adversárus, num tive otro jeito, dei um chute na pelota, que ela arribou-se, subiu aos ceús, foi-se indo, indo...antonces eu tirei do bolso do carção, a páia, o canivete, e um pedaço de fumo, piquei o bicho, bem picadinho, mas bem picandinho memo, alisei a páia, arranjei fumo nela, enrolei, fiz o cigarro, amarrei, passei na língua, acendi, pitei, dispois de uns 5 minutos, ouvimu um baque forte, o poeirão subiu, corremu pra ver de onde vinha o barui, apois num foi a bichinha que caiu do céu, cavou um buraco no chão de quai um metro de profundeza, e partiu-se em 4 pedaços, parecia uma laranja...cabou-se o jogo de chutibola!
Se é verdade eu não sei, só sei que foi assim !

Minha homenagem a Ariano Vilar Suassuna, escritor, poeta, dramaturgo, romancista, advogado, e um grande brasileiro 



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