De estatura mediana, um pouco atarracado, de cor parda, um autêntico representante da mistura de raças do nosso país, de olhos castanhos claros, que ele insistia em ocultar por trás de lentes de contato azul-céu; coloria seus cabelos anelados, de loiro; dizia que era para homenagear as suas raízes holandesas - pois não há quem encontre um recifense, que não diga que não seja aparentado de um - fazia caminhada pela orla da praia todos os dias, sempre no mesmo horário, indo ou voltando da academia. Trajava um arremedo de bermuda, mais apertada que cinto de faquir, e tão colorida quanto estandarte de bloco carnavalesco, uma camiseta sem mangas, tão cavada no peitoril e nas axilas, que dava pra ver os músculos saltando para fora da fantasia.
Fazia questão de cumprimentar a todos os passantes, um alô aqui, outro acolá, uns o chamavam de holandês, outros de Argentino; apelido que ganhou por ser torcedor fanático da seleção Argentina. Amava a Messi, a Aguero, e Di Maria. Fanático de cantar hino com a mão direita sobre o peito. Seu nome de batismo é Deovaldo de Souza Santos, tão holandês quanto tapioca com manteiga de garrafa; em casa era chamado de Venta de Olaria, pois segundo seus irmãos, o nariz era tão largo quanto a fornalha que cozinha o tijolo. Odiava.
Reunidos em um bar, onde invariavelmente a nata dos endinheirados, jovens adeptos da boa forma, meninas de boa família, meninas de programa, e outros mentirosos, se encontravam para beber e assistir aos jogos da Copa do Mundo 2014. Telões espalhados, calor senegalesco, gente que não acabava mais. O jogo era Argentina e Holanda. O número de torcedores pró equipe laranja era bem maior. Num canto do bar, espremidos entre um dos balcões e os banheiros, estavam os felizes torcedores da equipe Argentina; Deo era o mais entusiasmado, gritava, cantava cânticos xenófobos, xingava os conterrâneos brasileiros, o ambiente foi ficando carregado, demonstrações de descontentamento de parte da torcida contrária. Fim de jogo. Deo, não se conteve, subiu à mesa e desancou à todos, palavras ásperas daqui e dali, em segundos, garrafas atiradas, copos, cadeiras, mesas viradas, a turma do deixa disso pondo panos quentes; mas nada continha o ânimo do argentino Deo, do meio da confusão surge um homem de mais de dois metros, face avermelhada, não se sabe se pela quantidade de chopp ingerida, ou se tomada de cólera, os olhos mais azuis que o mar da praia de Boa Viagem, as mãos maiores que raquete de tênis, vestia bermuda preta com uma águia estilizada na altura das coxas, camisa da seleção alemã, caminhou alguns passos, arrastando atrás de si, um enorme grupo de descontentes; o sopapo saiu como um chute raivoso, acertando em cheio o queixo de Deo, seu corpo fez piruetas no ar, como fazem os dos ginastas olímpicos, atravessou, mesas, cadeiras e o vitral do bar, indo se estatelar na calçada em frente, e ali permaneceu inerte, braços e pernas abertas, a bermuda molhada de urina, desmaiadão ! Seus confrades argentinos, bateram em retirada, pela brecha aberta no vitral. Por que argentino de nascimento, de sangue, de "tierra", não expõe a cara para receber porrada, prefere a covarde segurança da fuga, preservando o bom couro !
Tá com dó ? Muda pra lá !
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