sábado, 24 de novembro de 2012

" MINHAS RAÍZES AFRICANAS. AXÉ PRA TODO MUNDO AXÉ !!"

O ano, já não me lembro muito bem, mas creio que tenha sido em meados de 1.961, morávamos numa casa humilde, construída por meu pai. Minha avó materna, Maria Camilo, morava conosco, era uma mulher de rosto enrugado, pernambucana, de tez parda, pequena, observadora, de voz meio rouca, sotaque nordestino, lenço branco na cabeça, olhos pequeninos, meio rústica, mas de um coração enorme. Invariavelmente às tardes, íamos, eu minha irmã e meus primos, brincar na casa da vizinha ao lado da nossa. Era a casa de Vó Ana Preta, como o nome já denuncia, era uma senhora de mais de 95 anos; negra retinta, meio curvada pelos anos, gorda e bonachona, de sorriso largo e dentes alvos e perfeitos sempre à mostra. Enquanto brincávamos pelo terreiro - era assim que elas chamavam o quintal de terra batida - , subindo nas árvores frutíferas; abacateiro, pereiras, caramboleiras, pitangueiras, goiabeiras e tantas outras;  ora correndo, ou birrando uns com os outros. Minha avó Maria e a vó Ana Preta, nos observavam sentadinhas em banquinhos de madeira pintados de branco, conversando ou benzendo aqueles que as procurassem. Bucho virado, olho gordo, barriga d'água, frieira, dor de ouvido, convulsão, insonia, possessão, infertilidade, até dor de dente. A ladainha, ora era cantada por minha avó Maria, enquanto vó Ana Preta benzia, e vice e versa. Nessa hora eu parava de brincar, me juntava a elas; sentava-me ao lado das duas, apanhava umas folhas de capim, e benzia alguém do meu imaginário, imitando os gestos e os cantos das vovós. Às vezes minha mãe de leite, filha de vó Ana - você não deve saber o que é uma mãe de leite, né? - É uma mãe que alimenta com seu leite, os filhos de outras mães, que por algum motivo, o leite dos peitos secaram - Dona Maria do Nelson, era assim que era conhecida, ralhava comigo, mas minhas avózinhas sempre me defendiam, e permitiam que eu ficasse ali com elas.
Gostava de ouvir as rezas, eram uma mistura de português e um dialeto africano, o sacro e o profano, o cristianismo e a raiz africana.
Lembro do vestido de vó Ana Preta, era de chita, fundo azul marinho, decorado com motivos florais; margaridas pequeninas brancas, com o núcleo amarelo, mangas até o ante-braço, golas arredondas com delicadas rendas brancas enfeitando; bolsos nos dois lados, um guardava o pito (cachimbo ), no outro o fumo de corda. Vez por outra levantava-se do seu banquinho e ia até o estrado de louças para apanhar uma caneca de ágata e saciar nossa sede, com água de poço.
Tenho orgulho dessa herança africana, sou brasileiro, mistura de índios, brancos e africanos, aprendi, um bocado com elas, com meu avô João, russo, branco e espírita, principalmente em ter fé em Deus. Porque Deus está em tudo, no vento, na chuva, no sol, na lua, nas nuvens, nas águas, na natureza !
Deus é tão bom que me permitiu lembrar dessa pequena história.
Axé Vó Maria Camilo, Vó Ana Preta, Mãe Maria do Nelson, Vô João, Vó Rachel, Vô Mané Casado, Julião, e tantos outros da minha raiz !
Axé Babá !

3 comentários :

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  2. Lembranças boas, infância, brincadeiras na rua, amigos, dona Carmelita benzedeira, mãe gorda, vizinha boazinha, mãe de todos, ai que saudade...

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  3. Nossa eu voltei na nossa infância agora.Que saudades me deu daquela época!!

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