sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"O NAMORADO DO SARGENTO"

José Guerra, o Zelão, sujeito batalhador,  tinha  diversas profissões, e em todas demonstrava capacidade, habilidade, destreza;  exímio ferreiro, padeiro, confeiteiro, motorista, dinamitador, e ainda se virava como marceneiro e carpinteiro. Na profissão de fé, em sua oficina nos fundos de sua residência, fabricava artesanalmente ferraduras, peças para embocaduras, estribos, e tudo que se relacionasse à montaria, era assim que ele se referia aos equinos. Sob encomenda construía charretes, ocasionalmente carroças; tudo de forma artesanal, pouco ou quase nada utilizava ferramentas modernas. Nas horas vagas entalhava madeira com arte, dando-lhe forma de santos, pássaros, musas, deuses; expunha suas obras em feiras e centro de exposições, da venda das peças, completava a sua renda.
Sua rotina era hercúlea, a fornalha beirando 800 graus ou mais, a marreta malhava o ferro incandescente ritmadamente, o barulho da marreta amassando o ferro em brasa contra a bigorna, dando forma a uma nova ferradura. Por volta das 15:00 horas, finalizava a última dos cerca de 40 pares diários. O calor da fornalha, o sol inclemente dos dias de verão, o esforço físico desprendido, o exaustava. Para que seu o corpo retomasse à temperatura normal, se recolhia á sombra de uma amoreira, ladeada por uma aroeira, plantadas por ele em seu quintal. Ficava por ali tomando uma fresca. Muito conhecido na vizinhança, cumprimentava à todos os passantes, um dedo de prosa com um ou outro, e assim a tarde e a temperatura caíam.
Havia no bairro um sujeito grandalhão, olhos verdes, porte atlético, com pouco mais de 65 anos, conhecido de todos por major; patente que ostentava desde as fileiras do exército. Dizem ter sido caçador de terroristas, e que na época da ditadura, era tido e havido como linha dura. Usava um óculos de aviador com lentes verde-escuras que lhe escondia os olhos, voz grave, o que lhe dava uma certa aura de mistério e impunha respeito. Todos os dias fazia caminhada; de quando em vez, aos avistar Zelão, soltava uma boa tarde, para logo em seguida dizer:  
- Vida boa, hein?  só tomando um arzinho fresco, né ? - Zelão sorria amarelo, acenava e o major seguia em frente.
Certo tarde o major não só cumprimentou, como parou para um dedo de prosa. E a mesma ladainha se repetiu. Já de saco cheio, Zelão inicia :
- Pois é, nada melhor do que a sombra de uma árvore para dar refrigério ao corpo, ainda mais sendo uma árvore frutífera e a outra medicinal. A natureza é pródiga.
- É mesmo, o você tem razão, e essa árvore o que é? Apontando para aroeira
- Ah... essa é um anti inflamatório excepcional, serve pra tudo. Das folhas faz-se chá para estomatite, e também para curar impotência, da casca, escalda pé para eliminar inchaço das pernas e varizes e os ramos mais grossos curam hemorróidas, emendando, outro dia mesmo, esteve aqui o sargento Ditão pedindo uns galhos.
O major tirou os óculos, seus olhos verdes brilharam como os de uma menina que recebe sua primeira boneca de presente, as pestanas tremiam, a voz outrora grave, embargou; lágrimas teimosas insistiam em rolar pelo canto dos olhos, foi então que ele desceu do pedestal majorengo e num esforço para não se denunciar, mas já se entregando, soltou:
- Você o viu? Quando foi, que dia ? Ele está bem? Não o vejo desde a nossa separação !
Zelão, impávido a tudo viu e ouviu, manteve a fleugma, como se nada de surpreendente houvesse ocorrido, tascou:
- Pelo jeito casou de novo, pois queria saber como é se fazia banho de assento com os ramos grossos da aroeira. Eu expliquei que não é banho, é para lavar bem, tirar a casca e enfiar no rabo!
 


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