Quatro da matina; breu total, luz só a das estrelas, visualizar algum ser vivente, só o vulto das ratazanas disparando entre um casebre e outro. Rua de cascalhos, buracos, valetas, cães latindo, gatos pardos fugindo dos ratos. Vila da Felicidade, fora formada após uma invasão. A área era disputada entre a prefeitura da cidade, herdeiros de um cotonifício, e desabrigados das chuvas de verões passados. Aos poucos foram invadindo a área em disputa; organizados, foram marcando seus terrenos, no começo eram 65 famílias. Pouco mais de duas semanas depois, eram cerca de 150. A notícia correu solta e rápida. Veio gente de todo lugar, de vários estados, a parentada invasora, noticiou. Rastilho de pólvora. Não há nenhuma infra estrutura, energia elétrica, água potável, ruas, postos de saúde, comércio, ônibus, nada, nadinha.
Vila da felicidade, fica perto de lugar algum, vizinho de lugar nenhum. Formou-se ao longo do córrego dos desesperados, que quando chove, não precisa ser um dilúvio, vira um rio caudaloso. Na última chuva, vários barracos (que foram erguidos nas encostas do Morro dos Apelos ) desabaram, e foram arrastados rio abaixo. O desespero tomou conta de todos. Mas quem nasce desafortunado, conta com a ajuda solidária dos que como eles são.
A liderança da invasão, passou á boca pequena, que o vereador Dioclécio Phillantra, fará uma visita á Vila. Promete trazer água, energia elétrica, e uma linha de um ônibus, para servir a população.
As ratazanas continuam a passear pelas ruelas, becos estreitos, os cães a ladrar, os gatos cada vez mais pardos, aproveitando a luz âmbar das velas dos inconscientes.
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