Mal o dia amanhecia, e lá estavam a caminhar pelo calçadão da praia, seguiam em passos marcados, sem pressa, apenas caminhavam, conversando animadamente; eram discretos até nos gestos. Foram 25 anos de união, feliz e duradoura, Conheceram-se num dia de outono, na fila da agência dos correios. Estava calor, saíram juntos da agência; em poucos minutos perceberam o muito que tinham em comum, gostavam de ouvir Lp's de Angela Maria, Elis, Ney Matogrosso, Cauby, ícones da mpb, de jazz e blues, de flores e jardinagem, de ler Proust, poemas da geração Beat, viajar, conhecer novos lugares, gentes, de poodles, de sopa e de licores. Devido ao sol forte, abrigaram-se embaixo de uma quaresmeira em flor, no jardim da praça em frente à agência. Trocaram número de telefone, e se falavam todos os dias.
Passados alguns meses, resolveram morar juntos, unir as escovas de dentes, os chinelinhos.
Eram amigos, parceiros, confidentes, uma relação baseada em amor e carinho. Adoravam brincar o carnaval. Rio, Olinda, Recife, Salvador, Santos, não perdiam uma festa pagã.
Um era engenheiro, o outro diretor em uma escola pública. Adquiriram bens, casas, apartamentos, sítio, carro, viviam confortavelmente no apartamento em frente ao mar, na praia de Itararé, em São Vicente, de onde, pela janela, avistavam o movimento de carros, banhistas, turistas e o marzão a perder de vista. Sentavam-se nas espriguiçadeiras da varanda, e entre goles de Gin-tônica com casquinha de limão, liam e conversavam, vez ou outra recebiam amigas, para passarem o carnaval.
O tempo zumbiu, feito vôo de abelha no cio, passou rápido. Manú, debilitada pela diabetes, via o mundo e as coisas que mais gostava, sentada numa cadeira de rodas. Ciço, sempre cuidadoso, prestativo, carinhoso, cercava Manú de mimos, fazia mingauzinho com canela em pó pela manhã, se esmerava na cozinha e fazia os pratos da dieta, direitinho; tudo para que seu "mozinho" ficasse bem.
Aos 85 anos, Tia Manú, faleceu. Entre gritos histéricos, choros e soluços, Ciço liga para portaria do prédio pedindo socorro. O porteiro, solicito, toma o elevador e ruma para o apartamento 81. Lá chegando encontra Ciço em choque, segurando a mão do velho companheiro, que estava inerte em sua cadeira de rodas, beijava e acariciava a face do morto. Constatada a morte, restou ao porteiro tentar consolar a "viúva (o) ", que surtara, gritava juras de amor eterno ao falecido.
O serviço médico da prefeitura fora acionado, também o serviço funerário. Parentes e amigos foram notificados. Em horas, todo prédio e o apartamento dúplex, fora tomado por amigos e amigas do casal.
No domingo, o funeral. Ciço estava incosolável com a perda do companheiro de tantos anos, levaram-no para fora do velório, ofereceram-lhe um cigarro, prontamente recusado. O que o falecido pensaria dele, com nova recaída pelo tabaco ? Alguns passos adiante, senta-se em um banco da pracinha em frente. Acomoda-se. De repente, irrompe em choro, aponta para a quaresmeira em flor, que o abriga do sol daquela manhã de domingo triste. Lembrou-se do primeiro encontro com seu amado.
Em tempos de casamento gay, discrição é uma palavra que anda tão inusual !
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