Chovia, raios, trovões, granizo, vento forte, o quarto a meia luz, ar condicionado tiritando, garrafa de vinho tinto seco, vazia; você quietinha dormitando o sono dos justos, respiração leve, porém profunda, cabeça no meu peito, aninhada feito um bebê querendo proteção. Gosto de ver você dormindo, teu sorriso lindo não sai do rosto. Cochilo, acordo com o som do meu próprio ronco; engolfo com minha respiração, sinal de cansaço. Me ajeito, o sono vem, profundo, intenso e, reparador. A noite foi maravilhosa !
Sonho. Me vejo na janela de um prédio da rua Boa Vista, centro velho de São Paulo. Correria, gás lacrimogênio ardendo as narinas e as entranhas, Cavalaria da PM, jovens em disparada, objetos sendo arremessados das janelas dos prédios das agências bancárias, fitas de calculadoras voando no espaço como serpentinas no carnaval; uma Olivetti se estatela no chão, raspando a cabeça de um cavalariço. O tempo fechou !
Manhã do dia seguinte. Greve dos bancários, greve dos motoristas, greve dos metalúrgicos, tudo ao mesmo tempo agora. Sigo pela rua Titan, entro na Av. Satélite, ando uns 450 metros, Largo de São Matheus, multidão, pontos de ônibus abarrotados, formigueiro, tensão. Encontro o pessoal da AP (Ação Popular ) um dos braços da esquerda ainda em atividade. Tarefa do dia : Não deixar que nenhum ônibus atinja o largo. Seguimos até a o ponto final do São Matheus - Parque Dom Pedro. O frio era de lascar, o sol tímido, mas o sangue nas veias a mil graus. Palavras de ordem, aqui e ali, e o povo sendo alimentado feito fogueira em dia de São João. Chegamos. Um motorista tentava sair com o ônibus, foi arrancado de dentro, levou uns safanões, e saiu correndo. Manobraram o bruto, e o deixaram atravessado entre a avenida e o largo. Duas dezenas de pessoas tombam o veículo sem muito esforço. Coquetéis Molotov zunindo no ar, caindo e explodindo, e todo o ônibus virando uma bola de fogo. Correria desenfreada...logo, mais um e mais outro, carros da prefeitura, o fogo tomava conta da praça, do largo, das ruas adjacentes. Sumimos na multidão.
Risadaria nervosa, êxtase em desabalada carreira. A Kombi do japa nos esperava. Todos dentro, bancários em sua maioria, 12 pessoas, todos bem suspeitos. Cabelos compridos, jaquetas verde oliva, jeans e tênis, e o cheiro de gasolina pairando nas vestes. No pára-brisa da Kombi uma placa onde se lia : Lotação Centro - Pq. D.PedroII . Esse seria nosso passaporte.
Chegamos sem sobressaltos, caminhamos até a Rua Tabatinguera. Lá, recebemos os estilingues e as munição ( bolas de chumbo e bolinhas de gude ). Missão : Chegar até o centro bancário, para reforçar a infantaria do sindicato, contra a Polícia Militar e seu batalhão, formado por cavalaria e choque.
Ao nos aproximarmos da rua Boa Vista, uma coluna de soldados sobe pela Ladeira General Carneiro, virando à esquerda nos encontram. As bolas de chumbo e gude, atravessam o ar, a soldadesca cai no chão. Correria...! Primeiro round nosso. Urras, adrenalina a mil. Mas não por muito tempo. De frente, pela rua Boa Vista e, em formação, estava a cavalaria, espadas desembainhadas, a toda carga ao nosso encontro. Rapidamente, formamos a 1ª coluna, agachados, logo atrás a segunda, e mais atrás a bateria pesada. As granadas de gás voavam pelos ares e explodiam à nossa frente, as bolinhas dos estilingues acertavam os "meganhas" e seus cavalos...zoada de tiros. Todo mundo se abaixa, de repente as explosões, e os cavalos disparados pela rua Boa Vista, abrimos um buraco na formação do inimigo. A munição acabou, agora é cada um por sí. O cheiro do lacrimogênio não me deixava respirar direito. Ardência nos olhos, semi-cegueira, misto de medo e de missão cumprida. Corro sem parar, e sem enxergar direito quem está a meu lado, corro e corro ! Saio no Largo São Bento, diviso o portão do Colégio São Bento, adminstrado por freis ou jesuítas ( nem me lembro mais ) e, que eram simpatizantes da causa operária e dos ideais cristãos-socialistas. Meio tonto, corro buscando as minhas últimas forças, porque dava para ouvir o tropel da cavalaria batendo os cascos no mármore do calçamento e , vindo em nossa direção. Caí para dentro, ou me jogaram com mais uns 10 ou 12. Já dentro das dependências da Igreja de São Bento, respiramos, todos, aliviados. Um jesuíta, frade, frei, sei lá, nos aponta a direção a seguir. Saímos apressados, pelo labirinto de corredores. Final da linha. Saímos na rua Barão de Duprat . A noite cai. Rua Cantareira, de cara com os canas !
Acordei suado, assustado, sem saber ao certo onde estava, ouço teu sussurro, a me perguntar se estou bem; vejo teu sorriso, sinto teus lábios, teus abraços, carinhos, retribuo o sorriso e os afagos, digo que está tudo bem. Você me diz que ronquei um pouco.
Noite fria, chuva, carinho e vinho. Fazer amor é melhor que lutar batalhas perdidas.
"Beira do mar, todo mar é um...começo do caminhar.."
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velhos tempos, lutas, vidas em risco, sonhos da juventude, mas passou, valeu apena, mas ficou pra trás, acorda e viva o momento presente, ame, cante, viva
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