São Paulo é uma cidade caótica, trânsito maluco, habitantes demais, filas intermináveis, cinza, abafada, quente, fria; mas acolhedora, hospitaleira, mãezona, recebe a todos com os braços abertos, como se fora uma mãe italiana, e ciumenta como uma avó judia. É um caldeirão cultural, gente de todas as partes do mundo. Escolha um prato da culinária mundial, que em "sampa" você vai encontrar um restaurante especializado. Teatro, cinema, bares, baladas, sebos, parques, diversão para todos os gostos. São Paulo não pára, não dorme, não falha. É o trem-bala, do país, porque locomotiva é para os fracos !
Nos anos 80, bem no finzinho deles, a prefeitura municipal resolveu dar uma chacoalhada no transporte público. Implementou a municipalização do transporte. A intenção era dar à população um transporte público, rápido, moderno, eficaz, limpo e seguro. Os barões, os empresários, não gostaram nadinha disso. Relutaram em comprar novos ônibus, em adequar suas empresas à nova realidade. Mas como diz o ditado : Manda quem pode, obedece quem tem juízo !
Coelho, era um dos funcionários capacitados para fiscalizar a implementação das novas exigências da prefeitura. Ex-militante de esquerda, havia se auto-exilado no Chile de Allende, por anos. De regresso ao Brasil, logo após o término do governo militar; mantinha-se antenado, mas um pouco distante de política.
Naquela noite, o frio era intenso, daqueles de fazer pinguim dormir na geladeira para se aquecer; ideal para uma sopinha bem quente e cama. Mas o trabalho exigia dedicação. Meia noite e meia, Coelho já cheio de fome, dá uma paradinha no expediente para fazer uma boquinha. Ele e seus colegas, Marco e Che, chegam ao restaurante e pedem caldo de mocotó, e um copo de bagaceira cada um. O frio lá fora, castiga, e nada melhor que um caldinho para esquentar. Mal é servido o prato, e um menino de rua, se aproxima, e com voz quase inaudível, diz estar com fome. Apiedado, Coelho, lhe pergunta o quer comer. Bauru, diz o menino. Prontamente o pedido é atendido. O menino pega o sanduíche, um refrigerante, e saí pela mesma porta que entrou. Nem agradeceu. À porta de saída, abre o sanduíche, retira o recheio, e joga o pão no chão. Vira-se para trás, fita Coelho, e vai embora na noite. O velho militante incrédulo com a atitude do menino, levanta-se, pega o pão e joga no cesto de lixo.
Passados uns 15dias, o trio estava no mesmo restaurante comendo, quando o mesmo menino se aproxima, e pede com a cara mais teatral do mundo, um prato de comida. Coelho não se faz de rogado. Diz ao balconista para preparar um prato de caldo de mocotó :
- Ô Menezesss, faz um caldinho aqui pro garoto, mas bemmmmm quenteeee, viu ! ?
O prato é servido; Coelho insiste para o menino sentar-se ao seu lado, prontamente é atendido. O menino dá as primeiras colheradas no caldinho, e as primeiras lágrimas lhes saem pelos cantos dos olhos, os beiços, incharam a olhos vistos, a língua avermelhou, Coelho de posse de outra colher cheia do bom caldo, vê o menino deixar o local em desabalada carreira. Dava para ver a fumaça saindo do traseiro do menino !
Hay que endurecer... pero no mucho !
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