quinta-feira, 8 de novembro de 2012

" Preta ! Tu não deixou nem mesmo um bilhete ? "

Não disse adeus, saiu deixando interrogações sem respostas, palavras mortas, uma toalha úmida jogada na cama, a sandália que foi ao samba, atrás da porta, uma calcinha ainda molhada, pendurada no box do banheiro, o chuveiro gotejando. Os armários revirados, nem mesmo os cintos coloridos ficaram; tudo desarrumado, remexido. A cama por fazer, resto de café num copo,
migalhas e sobras de pão na mesa da cozinha, a louça do jantar de domingo, já lavada, repousava no escorredor. A garrafa d'água que outrora fora gelada, e matara nossa ressaca, está quente e pela metade. Nosso quarto, ainda rescende o cheiro do teu creme, e a tua escova de cabelos ficou no toucador.
O rádio ficou ligado, tocando um samba de Cartola, aquele que você tanto gostou. A luz do corredor, você nem apagou. Tua pressa foi tamanha, que nem o lixo para fora você botou.
Vou tomar um banho, fazer o rango, porque o de ontem não sobrou. Beber umas Yaúcas, molhar o beiço, regar a goela como uma cerveja gelada, para ver se afasto a dor.
Tu escolheu a rua, mariposa que não vive sem a luz da noite.
Sei que tu ficastes chateada porque eu não tinha nenhuma prata, para tu dar um tapa na mizimba, fazer uma chapinha. Mas tu sabe, preta, que eu não te prometi nem o sol e nem a lua. Mas se queres seguir em frente, que não seja nas ruas.
Mas preta, vou ti fazer um apelo, quer ser dona do meu lar, cuide mais do teu cabelo !

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