Contava eu, meus 11 para 12 anos - se me lembro bem - e para ajudar na renda da minha família, vendia pacotes de amendoim torrado nas calçadas da orla da praia. Saía de casa pela manhã e voltava lá pelas 14:00 horas da tarde; pois estava cursando o antigo ginásio e não podia perder aulas.
Não era um grande vendedor, mas dava para comprar o pão e alguma outra coisa que faltava, jamais um dia era igual ao anterior. Tinha dias que levava horas para vender 5 ou 6 pacotinhos. Isso me deixava consternado, triste, mas eu insistia e conseguia salvar o dia. Não podia chegar em casa sem nenhum vintém, o pão tinha que ir à mesa. Não trabalhava porque queria, era necessidade mesmo. Eu era acanhando, tímido, tinha vergonha de oferecer meu produto - é assim que se fala em marketing, né ? - tinha momentos que eu queria estar na praia, ou andando de bicicleta, até mesmo jogando futebol, enfim brincando como qualquer outra criança da minha idade, mas eu tinha esse compromisso com minha família e comigo mesmo.
Certo dia vendi uns pacotes para um gringo, que se refastelava numa espreguiçadeira de um dos hotéis da orla, sua pele estava tão vermelha quanto um camarão sete barbas, suas bochechas eram róseas, os olhos verdes feito folhas de coqueiro, era enorme, grandalhão mesmo. Seu hálito tinha teor alcoólico maior que 96º, fiquei tonto só com a saudação : - Bonjour !! - Era francês, falava nosso idioma com muito sotaque, mas dava para nos entender, muito risonho e simpático, talvez estivesse de porre. Pagou o que me pediu, estendeu a mão e me deu uma moeda de presente; eram 10 libras esterlinas. E falava : C'est rrarrô !!
Os anos se passaram, tornei-me adulto, já com filhos e desempregado. Todas as manhãs saía em busca de um novo emprego. A crise era forte, a economia não ia bem das pernas no Brasil. Para economizar uns cruzeiros, usava os trens para me locomover do bairro ao centro. Certo dia, tive que usar mais bilhetes que de costume e fiquei sem ter como voltar para minha casa. O dinheiro era curto e eu não poderia sair o resto da semana para procurar um novo emprego, pois meus filhos ficariam sem pão. Ou eu ou eles. Resolvi que iria voltar para casa a pé. Seriam mais ou menos 14 km do centro à periferia onde eu morava. Usaria as linhas do trem do subúrbio como caminho. Resolvida essa questão, iniciei a caminhada. Passava pelo centro-velho, pela rua 24 de Maio, quanto reparei pequenos anúncios de clubes de numismática. Meti a mão no bolso da calça, saquei a carteira, abri o porta moedas, e eis que surge a moedinha de 10 libras. Reli o anúncio, procurei o endereço e fui à luta. Apresentei a moeda ao colecionador, ele examinou, virou, reexaminou e sentenciou :
- Pago $150,00 cruzeiros !!
Arregalei os olhos e de pronto falei não. Ele :
- $180
Eu : Não
O cara me devolveu a moeda, coloquei de volta à carteira e saí.
Andei alguns metros, e encontrei diversas lojas de numismática.
Entrei numa, em poucos minutos vendi minha moedinha da sorte por $200,00.
O colecionador me informou que era uma moeda de prata, cunhada em meados da 1ª Guerra Mundial pelo governo britânico, seu formato se diferenciava das demais, como foram cunhadas poucas devido ao advento da guerra, se tornara um tanto quanto raras. Pagou e eu sai feliz da vida.
Passei num super mercado, comprei carne e algumas coisinhas para as crianças, paguei a conta de luz que estava atrasada, e pude dormir aliviado naquela noite. Logo na semana seguinte arranjei um novo emprego. Um pequeno tesouro esteve comigo por mais de 18 anos e no tempo certo Deus o fez reluzir em minha vida.
Assinar:
Postar comentários
(
Atom
)
Postagens populares
-
Acordar e ainda ter vontade de dormir, preguiça, dormitar, espreguiçar e tentar despertar. A vontade é permanecer na cama, deitada e se poss...
-
Há tempos venho observando, percebendo, acompanhando, conversando sobre, palpitando, questionando, instigando, buscando me informar, saber,...
-
Nós, os seres humanos, animais ditos racionais, pensantes; agimos muitas vezes instintivamente e como os outros animais, carregamos dentr...
-
Não disse adeus, saiu deixando interrogações sem respostas, palavras mortas, uma toalha úmida jogada na cama, a sandália que foi ao samba, a...
-
Aos quartoze anos, Paulo Roberto, cursava o secundário e, era aluno também do curso de torneiro mecânico na escola industrial. Aluno aplic...
-
Não sei patavinas de física, química, biologia, essas coisas que muitos de nós estudamos, mas em verdade, pouco ou nada nos ajuda na vida p...
-
Não queria que fosse assim um partir sem vir Ir sem ficar Não queria que fosse assim Sem sentir tua presença ver teu vulto passar somb...
-
À época, a casa era um dos poucos redutos de samba em São Paulo, onde se podia curtir as raízes sambistas, uma fortaleza, uma resistência a...
-
Olhares Sorrisos Perfumes, doces, amadeirados, perfumes Cheiros Bocas coladas Línguas entrelaçadas Sugadas, mordiscadas Olhos nos olh...
-
Sertão de qualquer estado do Brasil O dia era quente, o sol inclemente, tão quente o dia, que urubu voava com uma asa só, porque a outra es...
Postagens populares
-
Acordar e ainda ter vontade de dormir, preguiça, dormitar, espreguiçar e tentar despertar. A vontade é permanecer na cama, deitada e se poss...
-
Há tempos venho observando, percebendo, acompanhando, conversando sobre, palpitando, questionando, instigando, buscando me informar, saber,...
-
Nós, os seres humanos, animais ditos racionais, pensantes; agimos muitas vezes instintivamente e como os outros animais, carregamos dentr...
-
Não disse adeus, saiu deixando interrogações sem respostas, palavras mortas, uma toalha úmida jogada na cama, a sandália que foi ao samba, a...
-
Aos quartoze anos, Paulo Roberto, cursava o secundário e, era aluno também do curso de torneiro mecânico na escola industrial. Aluno aplic...
-
Não sei patavinas de física, química, biologia, essas coisas que muitos de nós estudamos, mas em verdade, pouco ou nada nos ajuda na vida p...
-
Não queria que fosse assim um partir sem vir Ir sem ficar Não queria que fosse assim Sem sentir tua presença ver teu vulto passar somb...
-
À época, a casa era um dos poucos redutos de samba em São Paulo, onde se podia curtir as raízes sambistas, uma fortaleza, uma resistência a...
-
Olhares Sorrisos Perfumes, doces, amadeirados, perfumes Cheiros Bocas coladas Línguas entrelaçadas Sugadas, mordiscadas Olhos nos olh...
-
Sertão de qualquer estado do Brasil O dia era quente, o sol inclemente, tão quente o dia, que urubu voava com uma asa só, porque a outra es...
Nenhum comentário :
Postar um comentário