O Rei Sol era inclemente naquelas paragens, no céu nenhuma ave o desafiava, as nuvens não ousavam tecer figuras, da estrada poeirenta vapores quentes brotavam da terra como se fossem cozinhar todos os seres viventes. De onde estava só vislumbravam vegetação ressequida; meus olhos teimavam em arder, tamanha a secura do ar, de tempos em tempos, passava um lenço embebido de água para mantê-los úmidos. A garganta seca, tal qual garganta de sertanejo. Já haviam passado mais de 3 horas, desde de o último e dificultoso contacto pelo rádio - até subi na escaldante cabine do caminhão para obter melhor cobertura do satélite.
Ao longe avisto um poeirão subindo, pensei : Deve ser o socorro !! - E era mesmo !!
Resolvido o problema , segui viagem. Já era noitinha quando cheguei a Bom Lugar, lugarejo encravado no meio do sertão nordestino. Lugar paupérrimo, sem água encanada, sem energia elétrica, duas ruelas de terra batida e sem iluminação. Hotel, pensão e restaurante não existiam, só uma ou duas bodegas, que só serviam cachaça e um ou outro gênero alimentício. O calor deu uma trégua. Preparei a bóia ali mesmo, ao lado de uma quixabeira. Quando já estava pronto para traçar meu arroz de carreteiro, fui assombrado por três figuras que saíram do nada assustando-me. Eram uma senhora e duas crianças, uma delas um bebê ainda. A mulher era esquálida, os pequenos me impressionaram pela magreza dos corpos e aparente debilidade física. A mulher só me encarava sem nada dizer, o maiorzinho caminhou em minha direção e cabisbaixo disse-me :
- Moço tô com fome, me dê o de cumer, por favor !
Sua voz era tão fraca que mal saía da boca. Congelei, fiquei estático, uma tristeza se apoderou de mim em fração de segundos, demorei para voltar àquela dura realidade. O menino tornou a repetir as mesmas palavras como se fôra um mantra. Me refiz e pedi para que sentassem nos cadeiras de lona que armei rapidamente. Providenciei água, muita água para a mulher e os filhos. Ela me disse que estavam andando a quase dois dias e, que só haviam comido rapadura e mais nada desde então. Os alimentei e fiquei ali conversando com a mulher e o menino; pedi que a senhora acomodasse o bebê que já caíra em sono profundo depois que foi alimentado. Já passava das 9 da noite quando os convidei a dormirem na cabine . Dormiram o sono dos justos. A mãe envolveu as duas crianças num abraço e dormitando fazia cafuné ora num, ora no outro. Aquele gesto me remeteu à minha infância. Lembrei de quando dormíamos eu, meus quatro irmãos e meus pais num acolchoado em um quarto alugado onde morávamos. Era um suplício ! Prometi à minha mãe que quando crescesse compraria uma casa para minha família, para que nunca mais passássemos frio e nos privássemos de conforto.
Deixei a pequena família na casa de uns seus parentes. Desejamo-nos mútuas bençãos, sorte e nos despedimos."Você que está lendo esse texto, deve estar de barriga cheia e reclamando da vida. Pense : O Brasil também tem Etiópia dentro dele "
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